DERRAMAMENTO DO ESPÍRITO
Relatos do Novo Testamento
Odilon Massolar Chaves
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184 do Código Penal e Lei 9610 de 19 de fevereiro de 1998.
Livros
publicados na Biblioteca Wesleyana: 110
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Tradutor:
Google
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Odilon Massolar Chaves é pastor metodista aposentado, doutor
em Teologia e História pela Universidade Metodista de São Paulo.
Sua tese tratou sobre o avivamento metodista na Inglaterra no
século XVIII e a sua contribuição como paradigma para nossos dias.
Foi editor do jornal oficial metodista e coordenador de Curso
de Teologia.
É escritor, poeta e youtuber.
Toda
glória seja dada ao Senhor
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Publicado
pela primeira vez em 1982
Imprensa
Metodista, São Paulo.
Editor:
Jorge Cândido Pereira Mesquita
Revisão: Odísia M. Chaves e Alcileia Silva
Índice
•
Apresentação
•
Introdução
•
Símbolos e termos ligados ao Espírito
•
Símbolos ligados ao Espírito
•
Termos ligados ao Espírito
•
Comparações que ajudam a esclarecer
•
Pentecostes dos discípulos e dos gentios
•
Relação entre o batismo com água e o batismo com o Espírito Santo
•
Diferenças de ênfases entre Lucas e João
•
Promessas de derramamento do Espírito
•
Dez relatos sobre o derramamento do Espírito
•
Análise da situação em que foi recebido o dom do Espírito
•
Os que receberam a bênção antes de Jesus nascer
•
O exemplo do próprio Jesus
•
Os que receberam a bênção no Pentecostes
•
Os que receberam a bênção após o Pentecostes
•As
quatro conclusões fundamentais
•
Nem todo caso se aplica a nós hoje
•
Não há um dom predeterminado para se receber
•
Crer é essencial para recebermos o Espírito Santo
•
O Espírito opera nas pessoas de maneira diferente
• Bibliografia
Introdução
O
missionário e escritor Stanley Jones afirmou: “Não vejo nada, absolutamente
nada, que possa tirar a Igreja de trás das portas trancadas senão um
Pentecostes. Podeis aumentar a beleza de seu ritual; melhorar a qualidade de
sua educação religiosa; elevar o padrão e as qualificações do seu ministério ao
mais alto grau; desejar dinheiro a manchetes nos seus gazofilácios, dar-lhe,
enfim, tudo menos esta única coisa que o Pentecostes dá, e estareis apenas
ornamentando um cadáver. Até que este fato se dê, a pregação é simples
preleção, a oração é apenas repetição de fórmula, os cultos deixam de ser
cultos — tudo não passa de atividade terrena, circunscrita, inadequada, morta”
(1)
Esta
afirmação é verdadeira e só quem já a experimentou pode saber de seu verdadeiro
significado. Eu tive o privilégio de ter tido esta experiência. Esta
experiência — chamada por muitos de “carismática” — foi fundamental em minha
vida. Este “cadáver”, que Stanley Jones nos fala, era exatamente o que era a
minha vida espiritual. Eu não tinha o “hálito” da vida em abundância.
Este
livro foi publicado, pela primeira vez, em 1982, pela Imprensa Metodista, sendo
editor Jorge Cândido Pereira Mesquita.
Republicamos
por entender que é um tema atual e que este livro ajudará muitas pessoas em sua
caminhada cristã.
Símbolos e Termos Ligados ao Espírito
Nem
todas as palavras contidas na Bíblia podem ser lidas “ao pé da letra”, pois
nela pode estar um significado totalmente diferente e muito mais profundo do
que se imagina.
É
o que veremos abaixo:
I — SÍMBOLOS LIGADOS AO ESPÍRITO
SANTO
Pomba
Este
símbolo do Espírito está relacionado com a criação e com a vida. É o que nos
mostra Gn 1.2: “O Espírito de Deus pairava por sobre as águas”, trazendo assim
a vida ao mundo caótico, mundo vazio e sem vida. “Pairar” aqui tem
o
sentido de “chocar”. Seria como se o Espírito — à semelhança de uma ave (pomba)
— estivesse chocando o mundo para ele nascer.
Após
o dilúvio, a pomba trouxe um ramo verde de oliveira (Gn 8:11), significando
assim que estava sendo começada uma nova Era. No mesmo sentido, no batismo de
Jesus, o Espírito desceu em forma de pomba, significando ali que em Jesus
Cristo estava sendo começada uma nova Criação (cf Mt 3.16; Mc 1.10; Lc 3.21; Jo
1.32).
Por
outro lado, a pomba é símbolo de pureza e era utilizada também para o
sacrifício, que traria perdão aos culpados (cf Lv 5.7; Lc 2.24). Assim, podemos
dizer que ao descer e permanecer em Jesus, na forma de pomba, Cristo tornou-se
simbolicamente a “pomba” que, através do seu sacrifício, salvaria o mundo do pecado
(Hb 9.14). Assim, como ele é o Cordeiro, é também a Pomba.
Vento
No
Pentecostes aconteceu este vento: “De repente veio do céu um som, como de um
vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados” (At 2.2). O
vento significa, em muitas partes do Antigo Testamento, o hálito das narinas de
Javé (Deus).
Os
textos bíblicos de Êx 15.8; II Sm 22.16; SI 18.15 registram este fato.
É
através deste sopro que vem o fôlego da vida: “Então formou o Senhor Deus ao
homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem
passou a ser alma vivente”(Gn 2.7).
Este
vento no Pentecostes tem o significado da presença divina, enchendo a casa com
o hálito da vida e da nova Criação.
Fogo
Este
símbolo está relacionado com o “batismo com o Espírito Santo”: “Eu vos batizo
com água, mas vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de
desatar a correia das sandálias, ele vos batizará com o Espírito Santo e com
fogo” (Lc 3.16; cf Mt 3.11). No dia de Pentecostes “apareceram umas como
línguas de fogo, que se distribuíram e foram pousar sobre cada um deles” (At
2.3).
Se
entendermos que os discípulos ainda não eram convertidos (Lc 22.32), pois
também tinham dúvidas (Jo 20.25-27), podemos aplicar vários textos do Antigo
Testamento, que mostram o fogo como purificador (Is 5.24; Zc 13.9; Ml 3.2-3).
Assim, quando os discípulos creram realmente em Jesus (At 11.17), eles teriam recebido
o Espírito Santo e teriam sido purificados.
Mas
se entendermos que eles já eram crentes, que já estavam salvos, pois “vossos
nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10.20) e viviam em oração, esperando a
promessa de Jesus (At 1.14;2.1), podemos aplicar vários textos do Antigo
Testamento que mostram o fogo somente como sinal da presença de Deus (Êx 3.2; 3.1-6;
19.18; Dt 9. 3). Portanto, ele pode ter o sentido de purificação ou sinal da
presença de Deus entre os homens.
Tremer
o lugar
O
texto diz: “Enquanto oravam, tremeu o lugar onde se achavam reunidos; todos
ficaram cheios do Espírito e puseram-se a anunciar a Palavra de Deus com
firmeza” (At 4. 31).
O
termo grego usado aqui significa “agito, abalo, sacudo, movo, faço tremer,
perturbo”. Não quer dizer, porém, que, necessariamente, moveu o lugar onde eles
se achavam. Significa mais sinal da presença e poder de Deus naquele local (cf.
Êx 19.18; Is 6.4; Sl 68.8).
Algo
interessante a dizer é que Êxodo 19.18, como Isaías 6.4, falam de “fogo” e
“tremer” ao mesmo tempo. Parece que Lucas — autor de Atos dos Apóstolos —
falando de “fogo” em Atos 2.3 e falando de “tremer” em Atos 4.31, quis destacar
estes dois termos como sinais da presença divina naquele lugar. Neste sentido,
Atos 4.31 pode ser entendido também como um “complemento” do Pentecostes...
O
importante é não pegar este termo e outros ao pé da letra, pois a Bíblia usa de
muitos símbolos para falar sobre a presença de Deus. Muitos problemas podem
surgir hoje, se não entendermos isto corretamente, pois alguém, não vendo
“tremer” literalmente o lugar ao orar, pode duvidar da presença de Deus em sua
vida.
Pentecostes
Parece
que Lucas, ao narrar o evento do Pentecostes (At 2.1-13), procurou se contrapor
aos acontecimentos da Torre de Babel (Gn 11.1-9). Através de várias
comparações, pode-se chegar a esta conclusão:
Nos
acontecimentos de Babel, os homens se engrandecem: “Edifiquemos para nós uma
cidade, e uma torre cujo topo chegue até aos céus, e tornemos célebre o nosso
nome” (Gn 11.4), mas no Pentecostes Deus é quem é engrandecido: “Como os
ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?” (At 2.11).
Nos
acontecimentos de Babel — que significa confusão – os homens se confundem e não
compreendem mais a linguagem um do outro: “Desçamos e confundamos ali a sua
linguagem para que um não entenda a linguagem do outro” (Gn 11.7), mas no Pentecostes
eles — povos de diferentes nações — entendem a linguagem um do outro: “Cada um
ouvia falar em sua própria língua materna” (At 2.6) e adiante o texto diz que
eles “diziam entre si” (At 2. 12).
Nos
acontecimentos de Babel, os povos são dispersos: “Confundiu o Senhor a linguagem
de toda a terra, e dali os dispersou” (Gn 11.9), mas no Pentecostes os povos
são reunidos:
“Partos,
Medos e elamitas, e os naturais da Judéia, Capadócia e Ásia, da Frígia e da
Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, tanto
judeus como prosélitos, cretenses e arábicos, como os ouvimos falar em nossas
próprias línguas (At 2.9-11). Outro texto diz: “Achavam-se então em Jerusalém
homens piedosos de todas as nações que há debaixo do céu” (At 1.5). Assim, há
muito de simbolismo na narração do Pentecostes, que foi um fato histórico.
II — TERMOS LIGADOS AO ESPIRITO
1
— O dom do Espírito
Este
termo significa que o Espírito Santo é dado aos que creem (At 11.15-17), mas
não é dado por merecimento ou por algo que se faz. O termo significa que o
Espírito é um dom gratuito de Deus. A raiz grega — doreá — quer dizer “dom
gratuito de Deus”.
Vários
textos bíblicos confirmam que o Espírito é dádiva de Deus: At 10.45; At 2.38;At
8.18; At 11.17; At 15.8; Jo 3.34; Rm 5.5; 1 Ts 4.8, etc. A Bíblia chega a
condenar àqueles que pretendem “comprar” o Espírito Santo (At 8.18-20).
Não
devemos, porém, confundir “o dom do Espírito” com “dons do Espírito”. Os dois
significam dádivas, mas “o dom do Espírito” quer dizer que foi enviado ou será
enviado o próprio Espírito Santo àqueles que não o têm. Já “dons do Espírito”
(1Co12.1; 12.4; 12.11; 12.30; 14.12; 1Tm 4.14, etc.) quer dizer que o Espírito
Santo que já vive na vida do cristão — está distribuindo, está capacitando com
“ferramentas” o crente para a vida cristã e para a obra evangélica ser
realizada e o Corpo de Cristo ser edificado.
“O
dom do Espírito” vem geralmente com o artigo definido “o”, sempre no singular,
“Os dons do Espírito” são sempre no plural, a não ser quando se quer falar de
um dom somente: “O dom de curas” (1 Co 12.30).
2
— Unção do Espírito
A
unção com óleo, no Antigo Testamento, entre as suas utilidades, era um meio de
separar alguém para uma determinada obra. Os profetas (1Rs 19.16), sacerdotes
(Lv 8.12) e reis (1Rs 19.16) foram ungidos com óleo para realizarem as suas
tarefas.
No
Novo Testamento, a unção do crente, do discípulo de Cristo, não é mais feita
através do óleo e sim do Espírito Santo. A unção é chamada no original grego de
“carisma” — daí vem o nome “carismáticos” — e através da unção do Espírito, o
Messias (Lc 4.18; At 4.27; At 10.38) e o crente (2Co 1.21; 1Jo 2.20; 1Jo 2.27)
são separados para a carreira cristã.
O
carisma (a unção) está relacionado com a distribuição de dons. O carisma tem o
significado de dom, dote e “dons extraordinários, que distinguem certos
cristãos, dando-lhes o poder de servir à igreja de Cristo, sendo este poder e
estes dons o resultado da graça divina nas suas vidas (Rm 12.6; 1Co 1.7; 1Co 12.4;
1Pe 4.10)”. (3)
3
— Derramamento do Espírito
O
termo “derramamento” tem no original grego o significado de “distribuo
largamente”. Em relação ao Espírito, ele é aplicado duas vezes no Novo
Testamento: At 10.45; Tt 3.5-6. Nestes dois textos bíblicos, ele foi
distribuído a grupos de pessoas e não somente a uma pessoa, daí ser usado este
termo, pois significa que foi distribuído abundantemente.
Não
necessariamente, porém, este termo deverá ser usado para indicar que o Espírito
veio sobre grupo de pessoas, pois em outros grupos de pessoas o Espírito foi
“derramado” e este termo não foi usado.
4
— Revestimento da força do alto
Aparece
uma única vez no Novo Testamento: “Eis que eu vos enviarei o que meu Pai
prometeu. Por isso, permanecei na cidade até serdes revestidos da força do
alto” (Lc 24.49).
Este
termo no original grego pode ser traduzido também por “visto; entro e
insinuo-me”.
Já
o outro termo grego aqui empregado é “dínamis”, que tem o significado de poder
ou força. Este poder é inerente, ou seja, essencial ao cristão. Aqui também
pode ser traduzido por força
física
e idiomática.
Como
At 1.8 usa o mesmo termo “dínamis” e Jesus afirma que eles receberiam poder
para serem testemunhas e como testemunha no original significa “afirmo o que
vi, ouvi ou experimentei ou o que sei por divina revelação ou inspiração” (4), concluímos
que o revestimento da força do alto seria para os discípulos terem a coragem e
a capacidade de anunciarem Jesus ao mundo, principalmente, a respeito da
ressurreição de Jesus (Lc 24.48; At 2.32; At 3.15; At 4.33: At 5.32; At 22.15,
etc.).
5
— Fruto do Espírito
O
local onde se fala em fruto do Espírito, enumerando estes frutos, é em Gálatas:
“...mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade,
bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (GI 5.22-23). O termo grego
empregado é “carpós”, que significa fruto, resultado ou efeito do Espírito
Santo em nossa vida.
Necessariamente,
estes são os frutos que devem existir naquele que tem o Espírito Santo em sua
vida. Paulo, porém, parece realçar o amor como a marca primeira e principal
(1Co13.1-13; Rm 5.5; Gl 5.22, etc.).
Podemos
dizer que são estas as marcas do caráter Cristão. É o Espírito Santo, então,
que forma o caráter do discípulo de Cristo.
6
— Primícia do Espírito
Primícia
significa a primeira parte da safra, os primeiros frutos colhidos. Assim, em
relação à ressurreição, Cristo é a primícia (1Co 15.20-23), ou seja, ele foi o
primeiro que ressuscitou. Depois virão
os que pertencem a Cristo (1Co 15.23).
O
primeiro convertido na Ásia é chamado também como primícia: “Saudai meu amado
Epêneto, primícias da Ásia para Cristo” (Rm 16.5). O termo “primícia” dá,
porém, a ideia de complemento, significando que o restante virá no momento
oportuno.
Em
relação à primícia do Espírito, Paulo afirma: “E não somente ela. Mas também
nós que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela
redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). Significa aqui que o Espírito Santo ainda
não completou a salvação em nós, pois “gememos interiormente, suspirando pela redenção
de nosso corpo” (Rm 8.23). Somos filhos de Deus (Rm 8.16) e herdeiros da vida
eterna (Rm 8.17), mas o restante, o resultado final, completo, um dia
acontecerá pelo mesmo Espírito que ressuscitou a Jesus (Rm 8.11).
Portanto,
ter a primícia do Espírito é ter os primeiros frutos da salvação e a garantia
da entrega do restante: a vida eterna.
7
— Penhor do Espírito
Nos
dois lugares no Novo Testamento em que se encontra esta expressão — 2Co 5.5 e
Ef 1.13-14 — há um relacionamento com a ressurreição e a redenção. Penhor
significa no original “uma parte do pagamento total, adiantada como prestação e
garantia da entrega do resto”. (5)
Já
que penhor é a parte adiantada, então, podemos dizer que penhor do Espírito
significa que o Espírito, que nos foi dado pela fé em Cristo Jesus, é esta
parte de pagamento total, já adiantada por Deus. O Espírito Santo é a garantia
de que teremos a vida eterna. Assim, a vida eterna já começa aqui, pela
presença do Espírito em nossa vida.
8
— Selo do Espírito
Há
uma ligação entre primícia, penhor e selo do Espírito. Os três estão
relacionados com a salvação. Se primícia significa que temos os primeiros
frutos da salvação e penhor significa que temos apenas uma parte do pagamento
total, com a garantia da entrega do resto, selo significa que estamos sendo
guardados e protegidos por Deus, através de sua marca em nós — o selo do
Espírito — que indica que somos agora propriedade de Deus.
Somente
em três lugares no Novo Testamento aparece esta expressão: 2Co 1.22; Ef 1.13;
Ef 4.30.
9
— Testemunho do Espírito
Esta
expressão está relacionada também com a salvação. Somente em um lugar no Novo
Testamento aparece: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para
testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).
Esta
palavra “testemunho” significa “afirmo o que vi, ouvi ou experimentei...“. No
original grego vem acompanhando o “testemunho” a conjunção “sim”, que tem o
significado de “íntima comunhão, conjunção com, cooperação, acompanhamento
etc”. (6)
Assim,
podemos dizer que é o Espírito, em comunhão conosco, nos dando a certeza de que
somos herdeiros do Reino de Deus, que somos filhos de Deus, que estamos salvos.
Isto, porém, ocorre quando há íntima comunhão do Espírito conosco.
10
— Cheio do Espírito
É
o termo ligado ao Espírito que mais vezes aparece no Novo Testamento. Também
são usadas mais de uma raiz em relação a este termo:
-
Pléto: é usada em At 2.4 e 4.31 e significa “encho, cumpro”
-
Pléres: é usada em Lc 4.1; At 6.3; 6.5; 7.55 e 11.24 e quer dizer “cheio, grado,
pleno”.
-
Phuplemi: é usada cm Lc 1.15; 1.41; 1.67; At 4.8; 9.17 e 13.9 e significa
“encho, cumpro”.
Três
raízes diferentes para dizer, praticamente, a mesma coisa. Seria, praticamente,
o mesmo que usar as palavras “lindo, belo e bonito” em relação a uma pessoa.
Três palavras diferentes, mas que têm o mesmo significado. No grego, estas três
raízes querem dizer que algo está completo, cheio. Se estas raízes significam
“cheio”, esta palavra “cheio” tem, pelo menos, dois
sentidos
diferentes na Bíblia, como veremos abaixo:
“Cheio”
tem o sentido de qualidade de vida.
Isto
significa que, onde aparece a palavra “cheio”, está querendo mostrar que a
pessoa tem uma qualidade de vida espiritual muito boa. Vemos isto, pelo menos,
em três lugares no Novo Testamento:
—
“Procurai, antes, entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do
Espírito e de sabedoria, e nós os colocaremos na direção deste ofício” (At
6.3).
—
“A proposta agradou a toda assembleia, e foram escolhidos: Estevão, homem cheio
de fé e do Espírito Santo...” (At 6.5).
—
Outro lugar se refere a Barnabé: “Pois era um homem bom, e cheio do Espírito
Santo e de fé” (At 11.24).
Como
vimos, nestes três lugares, a palavra “cheio” está se referindo a alguém que
tem uma qualidade de vida espiritual muito boa. Nestes três exemplos, é usada a
raiz grega “Pléres”.
“Cheio”
significa também dom de profecia
Aqui
está uma afirmação que o leitor comum da Bíblia, geralmente, não consegue
perceber. Não por culpa dele, mas sim porque ele não tem acesso ao original
grego ou a determinados livros, que nos esclarecem isto.
Estamos
querendo dizer que nos textos bíblicos de Lc 1.41; 1.67; At 2.4; 4.8; 4.31;
7.55; 9.17 e 13.9 este “cheio”, que ali aparece, “não significa plenitude da
graça santificante, mas dom de profecia pelo qual o falar é inspirado”. (7)
Significa
dom de profecia? Como pode ser isto? Será verdade que uma palavra na Bíblia
pode ter dois significados? Sim!
A
palavra “cheio”, dependendo do local onde é empregada, tem sentidos diferentes,
assim, como a palavra “vale”, no português:
•
Significa um lugar: “No vale da Caledônia”.
•
Significa valor financeiro: “Me dá um vale!”
Empregando
a palavra “cheio” também como sendo profecia, poderemos entender que no
Pentecostes se cumpriu realmente a profecia de Joel, que dizia: “E acontecerá
nos últimos dias; diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne;
vossos filhos e vossas filhas profetizarão (At 2.17). Era isto que Pedro
procurava explicar aos presentes no Pentecostes.
Aquilo
que havia acontecido era o cumprimento da profecia de Joel (cf. At 2.15-16).
Mas
que havia acontecido para se chegar a conclusão que estava se cumprindo o que
Joel dissera? O texto diz: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo, e passaram
a falar em outras línguas...“ (At 2.4). Mas falar em línguas é dom de profecia?
É evidente que não! Como entender, então? O segredo está na palavra “cheio”,
que vem antes de “falar em línguas”. Aqui o “cheio” tem o sentido que estamos
procurando explicar, ou seja, significa dom de profecia. Mas por que eles
falaram também em línguas?
Havia
estrangeiros de vários lugares, então, Deus lhes deu a capacidade de
profetizarem, falando a linguagem dos povos ali reunidos, caso contrário, estes
não poderiam entender e receber a mensagem de Deus.
11
— Batismo com o Espírito Santo
Este
termo “batismo” é aplicado somente em três ocasiões — com certeza — em relação
ao Espírito Santo. Sempre que ele é usado, está em comparação a João Batista e
à água (cf Mc 1.8; At 1.5; At 11.16).
Por
que esta comparação?
João
Batista pregava o batismo com água para arrependimento (Mt 3.11; At 19.4), o
que envolvia confissão dos pecados (Mt 3 .6) e preparava o povo para a vinda
daquele que haveria de batizar com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11; Lc 3.16).
Significa
isto que o Espírito Santo haveria de “purificar o povo do mal” (8), como previa
a profecia de Isaías: “Quando o Senhor lavar a imundícia das filhas de Sião, e
limpar Jerusalém da culpa de sangue do meio dela, com o Espírito de justiça e
com o Espírito purificador” (Is 4.4). Outra profecia afirmava que o Messias purificaria
com fogo (Ml 3.2-3).
O
Espírito daria um novo coração ao povo da Nova Aliança, como disse a profecia
de Ezequiel: “Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro de vós espírito novo;
tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentre em
vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus
juízos e os observeis” (Ez 36.26-27; cf Jr 31.32-34; Tt 3.5-6; Rm 5.5; Gl 5.22).
Assim,
a expressão “batizo com o Espírito Santo” está ligada mais à purificação.
Inclusive — no original grego — o termo “batizo” quer dizer também “purifico,
limpo, lavo”. Poderíamos, então, dizer também: “Eu vos batizo com água para arrependimento.
. . Ele vos purificará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11).
A
comparação com João Batista tem o objetivo de mostrar que a obra e a pessoa de
Jesus são superiores à obra e a João Batista: “Eu vos batizo com água para
arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. De
fato, eu não sou digno nem ao menos de tirar-lhe as sandálias. Ele vos batizará
com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11).
Alguém
recebe a “purificação do Espírito”, não por méritos ou obras, pois isto é um
dom de Deus. Pedro, falando sobre o envio do Espírito aos gentios, disse: “Se
Deus, portanto, lhes concedeu o mesmo dom que a nós... “ (At 11.17). A condição
de ser “batizado” é a aceitação de Jesus Cristo (Jo 7.39; GI 3.14; Ef 1.13; At
11.17, etc.)
Percebe-se
claramente na Bíblia que, com o passar dos anos, este termo “batismo” deixou de
ser usado de maneira frequente. Provavelmente, porque não houve mais
necessidade de fazer a comparação com o batismo de João Batista e porque Paulo lidava
com os gentios, que geralmente não sabiam do passado e do batismo de João
Batista.
Paulo
fala de outros termos para dizer do recebimento do Espírito: “concede o
Espírito” (Gl 3.5); “recebamos o Espírito prometido” (Gl 3.14); “Espírito Santo
que nos foi dado” (Rm 5.5); “Deus, que vos infundiu o seu Espírito Santo” (1 Ts
4.8) e “Espírito Santo, que ele ricamente derramou sobre nós” (Tt 3.5-6), etc.
12
— Plenitude do Espírito
Um
líder pentecostal bastante conhecido — Juan Carlos Ortiz — afirmou: “A
plenitude da promessa do Pai vai muito além deste ‘pequenino’ batismo do
Espírito Santo que herdamos de nossos prezados irmãos pentecostais”. (9)
De
fato, não se pode confundir “batismo” com “plenitude”. Um é o começo, o outro,
é o final. “Batismo” é o momento de eceber
o Espírito Santo em nossa vida. “Plenitude” é quando o
Espírito
toma completamente a nossa vida, por isso, ele é o alvo maior. Somente em dois
lugares no Novo Testamento é usada a raiz grega “plerón”, em relação ao
Espírito: At 13.52 e Ef 5.18.
Outros
textos no Novo Testamento usam esta raiz “plerón” para dizer que determinadas
coisas estão cheias, plenas ou completas, como vemos abaixo:
•
Rede cheia de peixe (Mt 13.47-48);
•
A casa inteira ticou cheia do perfume (Jo 12.3)
•
A tristeza encheu os vossos corações (Jo 16.6);
•
Para que a vossa alegria seja completa (Jo 16.24)
•
Enchia-se de sabedoria (Lc 2.40).
A
plenitude tem o significado de ser o “último de uma série”, por isso, é maior
do que o “batismo com o Espírito Santo”.
“Plerón
coloca a chave da abóbada, não só terminando, mas unificando e harmonizando”
(10). Plenitude significa também “encho a ponto de transbordar, dou plenitude
ou acabamento a...”(11).
Podemos
dizer que “plenitude” quer dizer um pouco mais que “cheio”, embora quase não se
perceba a diferença. Assim, como dizemos que algo é “bom” e outro “muito bom”,
também podemos dizer isto em comparação a “cheio” e “plenitude”. Enfim, o alvo
maior do cristão deve ser: “buscai a plenitude do Espírito”(Ef 5. 18).
Comparações que Ajudam a Esclarecer
Às
vezes não percebemos certas relações existentes entre determinadas palavras e
fatos na Bíblia, por isso, a nossa compreensão fica um pouco limitada.
Com
este capítulo queremos ajudar ao leitor a ter maior subsídio para poder
compreender a doutrina do Espírito Santo e a ter também uma maior abertura em
sua mente. Assim, quando o leitor chegar ao capítulo sobre os “10
derramamentos” e os dois seguintes, poderá ter uma visão mais aberta e, por
isso, mais pronta também a aceitar e compreender certas afirmações bíblicas.
I — O PENTECOSTES DOS DISCIPULOS E
DOS GENTIOS
Entre
os “10 derramamentos”, um aconteceu no dia de Pentecostes com os discípulos de
Jesus, que eram quase na totalidade constituídos por judeus. Outro derramamento
ocorreu posteriormente com aqueles que não eram judeus. Ficou sendo chamado
este acontecimento de “Pentecostes dos gentios”.
Entre
as semelhanças e diferenças existentes entre os dois, estão:
1
— Semelhanças entre os dois Pentecostes
Sobre
o local
Os
discípulos de Jesus estavam em uma casa: “Tendo entrado na cidade subiram à
sala superior, onde habitualmente ficavam” (At 1.13). Esta sala superior
significa no original grego “parte superior da casa”. No dia de Pentecostes
“estavam todos reunidos no mesmo lugar” (At 2.1).
Os
gentios também estavam reunidos em uma casa. Esta casa era de Cornélio. Pedro
quando chegou lá, disse: “Vós sabeis que é absolutamente proibido um judeu
relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em casa dele” (At 10.28). Foi aí que
aconteceu posteriormente o Pentecostes dos gentios (At 10.44-45).
Portanto,
os dois Pentecostes aconteceram em uma casa.
Sobre
o meio de vir o Espírito
No
caso dos discípulos, veio sem nenhum intermediário: “De repente, veio do
céu...” (At 2.2). Com os gentios também aconteceu o mesmo (At 10.44), ou seja,
não houve intermediário, como aconteceu na imposição das mãos em Samaria (At
8.16-17) e em Eféso (At 19.1-6). Podemos dizer que, nestes dois casos, o “meio”
foi espontâneo, livre, sem interferência de alguma pessoa.
Foi
de modo direto.
Sobre
os fenômenos
No
Pentecostes dos discípulos aconteceram vários fenômenos:
•
Som como de vento (At 2.2);
•
Línguas como de fogo (At 2.3);
•
Línguas estrangeiras (At 2 4);
•
Profecias (At 2.17).
Também
no Pentecostes dos gentios, apesar de bem menos, aconteceram igualmente
fenômenos.
•
Falaram em línguas (At 10.46);
•
Engrandeceram a Deus (At 10.46).
Assim,
podemos dizer que em ambos os casos houve fenômenos.
d)
Sobre o nome do acontecimento
Nos
casos dos discípulos, é chamado de “Batismo com o Espírito Santo”, pois Jesus
assim o disse: “João batizava com água; vós, porém, sereis batizados com o
Espírito Santo dentro de poucos dias” (At 1.5).
Também
com os gentios assim é chamado: “O Espírito Santo caiu sobre eles, assim como
sobre nós no princípio. Lembrei-me, então, desta palavra do Senhor: João, dizia
ela, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo” (At
11.15-16).
2 — Diferenças entre os dois Pentecostes
Em relação ao dia do acontecimento
Enquanto
o caso dos discípulos ocorreu no próprio dia de Pentecostes (At 2.1), o caso
dos gentios ocorreu muito tempo depois, como vários textos mostram: “No dia
seguinte” (At 10.9).
Aqui
não significa dia seguinte após o Pentecostes. Outro texto diz ainda: “No dia
seguinte” (At 10.23); “Há quatro dias, eu estava em oração” (At 10.30).
Assim,
no mínimo 6 dias haviam passado do Pentecostes ao envio do Espírito aos
gentios, embora muito mais tempo, certamente se passou, pois em acontecimento
anterior com Paulo — entre os dois “Pentecostes” — o texto diz que Paulo
“passou alguns dias com os discípulos em Damasco” (At 9.19).
Em
relação ao batismo com água
Os
discípulos de Jesus, certamente, já haviam sido batizados, pois também
batizavam (cf Jo 4. 1-2; Mt 28. 18-20). Os gentios, porém, não haviam sido
ainda batizados, quando receberam o Espírito Santo. Pedro disse: “Pode-se,
porventura recusar a água do batismo a esses que, como nós, receberam o Espírito
Santo?” (At 10.47). Assim, uns receberam o Espírito após o Batismo e, outros,
antes de serem batizados.
Sobre
o significado de termos empregados
No
caso dos discípulos é dito que eles ficaram “cheios do Espírito” (At 2.4), não
querendo dizer aqui que eles ficaram plenamente santificados e sim que tiveram
o dom de profecia para anunciar a mensagem, de maneira inspirada, aos que ali
se encontravam.
Já
no Pentecostes dos gentios é empregado o termo “dom do Espírito” (At 11 .17),
não querendo aqui dizer que eles tiveram o recebimento de um determinado dom —
embora realmente recebessem — mas sim que este “dom” significa que os gentios
foram
igualmente merecedores do amor divino, que dá o Espírito gratuitamente aos que creem
em Jesus Cristo.
II — RELAÇÃO ENTRE O BATISMO COM ÁGUA
E O BATISMO COM O ESPIRITO SANTO
O
batismo de João Batista era somente com água e tinha um objetivo moral (Lc
3.10-14). Procurava levar as pessoas a fugirem da ira vindoura (Lc 3.7) e era
batismo para arrependimento (Mt 3.11), que introduzia o batizado no grupo dos
que esperavam o Messias, constituindo por antecipação a sua comunidade (Jo
1.19-34). Significava também que o presente século estava julgado e condenado
para o batizado. Este batismo, porém, não era em nome de Jesus (At 19.1-5) e
nem levava o batizado a receber o Espírito Santo (Lc 3.16).
Já
o batismo cristão, além de encerrar o presente século para o batizado, situa-o
desde já no século futuro, pois é batismo também no Espírito, que é o penhor da
nossa herança futura (1Co12.13; 2Co 1.22;5.5).
Embora
o Pentecostes esteja separado, no tempo, do batismo que os discípulos de Jesus
receberam, eles não podem ser entendidos separadamente. Há uma interligação
entre os dois.
Os
discípulos não receberam o Espírito no batismo porque isto era uma função de
Jesus e não de João Batista. Era necessário
também
primeiro Jesus ser exaltado para depois o Espírito vir (Jo 7.39).
Em
várias ocasiões, a Bíblia mostra o Espírito estando interligado ao batismo,
como vemos abaixo:
•
“Quem não nasce da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo
3.5);
•
“No momento em que Jesus, também batizado, achava-se em oração, o céu se abriu
e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea” (Lc 3.21-22);
•
Pedro disse: “Convertei-vos, e seja cada um de vós batizado em nome de Jesus
Cristo, para a remissão dos pecados, e recebereis, então, o dom do Espírito
Santo” (At 2.38).
Foi
por isso que os apóstolos Pedro e João foram transmitir o Espírito aos
samaritanos, que haviam sido batizados, mas não haviam recebido o Espírito
Santo (At 8.14-17).
Por
isso, Paulo, ao saber que os discípulos de Éfeso não haviam recebido o Espírito
Santo, lhes perguntou: “Em que batismo fostes batizados?” (At 19.4). Eles,
então, responderam: “Com o batismo de João” (At 19.4). Só depois que eles foram
batizados, em nome do Senhor, é que receberam o dom do Espírito (At 19.5- 6).
Por isso, também Ananias disse a Paulo que tinha sido enviado por Jesus para
que ele recuperasse a vista e ficasse cheio do Espírito (At 9.17). Após isto
ocorrer, este foi “imediatamente batizado” (At 9.18).
O
batismo com água está relacionado ao Espírito. Algumas pessoas chegam a colocar
também a água como símbolo do Espírito. Por isso, algumas vezes a Bíblia fala
que o Espírito foi “derramado” — como a água — sobre as pessoas (cf At 10.45;
Tt3.5).
O
fato do Pentecostes não mostrar que houve batismo com água, não quer dizer que
a água não esteja relacionada com o Espírito. João Batista já os havia batizado
com água e Jesus fez o complemento, enviando o Espírito Santo (At 1.5).
O
trecho que provavelmente mostra mais a ligação entre os dois é: “Pois fomos
todos batizados num só Espírito para ser um só Corpo” (1Co 12.13), embora haja
divergências sobre este versículo.
A
Bíblia mostra também em vários lugares uma grande associação do Espírito com a
água:
•
“O Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn 1.2)
•
A pomba, símbolo do Espírito Santo, foi solta três vezes, quando da ocorrência
do dilúvio, para verificar se as águas haviam baixado (Gn 8.8-12);
•
Na epístola de João está escrito: “E três são os que testificam na terra: o
Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito” (1Jo
5.8).
Isto
tudo mostra claramente que o batismo com o Espírito, ocorrido no Pentecostes,
foi um complemento do batismo com água. Por isso, o dom do Espírito não ocorreu
mais no Novo Testamento fora do contexto do batismo com água.
III — DIFERENÇAS DE ËNFASES ENTRE
LUCAS E JOÃO
Lucas
escreveu o evangelho de Lucas e o Atos dos apóstolos. João escreveu o evangelho
de João e certamente as três epístolas e o Apocalipse.
Percebe-se
claramente que existem algumas diferenças de ênfases entre os dois, que
precisam ser mostradas para se ter uma melhor compreensão da Bíblia e da
doutrina do Espírito.
1
— Sobre a época do envio do Espírito
Para
o evangelista São João, o Espírito seria dado quando Jesus ressuscitasse: “Pois
não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado” (Jo 7.39).
Foi antes de subir aos céus que o Espírito foi enviado aos discípulos: “Jesus
veio e, pondo-se no meio deles, lhes disse: paz a vós! Tendo dito isto, disse de novo — paz a vós! Como o Pai me enviou também
eu vos envio. Dizendo isto, soprou sobre eles e lhes disse: receberei o Espírito
Santo” (Jo 20. 19-22).
Para
a comunidade cristã, a qual João enviava o seu evangelho, era importante
ressaltar a presença física de Jesus, no momento do envio do Espírito. A
comunidade estava sofrendo influência de heresias — doutrinas contrárias ao
ensinamento bíblico — que diziam que Jesus não havia vindo em carne e sim em
espírito. Assim, negava-se a encarnação de Jesus, o seu sofrimento e morte na
cruz, como também a sua ressurreição
Não
foi sem objetivo que João em vários lugares fez questão de mostrar a presença
física de Jesus: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Na
cruz, ele faz questão de mostrar que Jesus não estava ali em espírito: “um dos
soldados traspassou-lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água”
(Jo 19.34). A Tomé Jesus disse: “Põe o teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende
a tua mão e põe-na no meu lado (Jo 20.27).
Antes
de enviar o Espírito, Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20.20). Assim,
João fez questão de mostrar que, quando Jesus enviou o Espírito, ele ainda não
havia subido aos céus. Ele enviou pessoalmente, fisicamente.
Para
Lucas, porém, o Espírito seria enviado após a ascensão de Jesus. Eles deveriam
esperar a promessa: “Eis que eu vos enviarei o que meu Pai prometeu. Por isso,
permanecei na cidade até serdes revestidos da força do alto” (Lc 24.49). Então,
para Lucas, o Espírito não havia ainda sido enviado. Logo, porém, o texto diz
que Jesus subiu aos céus, e que difere de João: “E enquanto os abençoava,
distanciou-se deles e era elevado ao céu” (Lc 24.51).
No
livro de Atos — de Lucas — Jesus promete “Sereis batizados com o Espírito Santo
dentro de poucos dias” (At 1.5).
Mais
à frente, após dizer que os discípulos receberiam poder (At 1.8), Jesus subiu
aos céus (At 1.9-10). No dia de Pentecostes após a ascensão de Jesus, o
Espírito Santo veio sobre os discípulos (At 2.1-4).
Dizer
que em João os discípulos receberam o dom do Espírito e no Pentecostes eles
foram batizados com o Espírito, é não perceber as diferenças de ênfases e
tentar contornar algo que a própria Bíblia não se preocupou em “corrigir”.
2
— Sobre os fenômenos
Para
João o Espírito foi enviado suavemente, sem alaridos, barulhos ou manifestação
de dons sobrenaturais. Jesus “soprou sobre eles” e eles receberam o Espírito de
uma maneira normal.
Já
Lucas faz questão de registrar minuciosamente vários acontecimentos
sobrenaturais no momento do envio do Espírito.
Entre
eles, estão: vento semelhante a vendaval (At 2.2); ruído (At 2.2); línguas de
fogo (At 2.3); línguas estrangeiras (At 2.4) e profecia (At 2.17).
Duas
ênfases completamente diferentes. Hoje não há estas mesmas diferenças? Enquanto
uns enfatizavam dons, acontecimentos sobrenaturais, outros, enfatizavam o
recebimento do Espírito de uma maneira suave, sem distribuição de dons. Qual das
duas estaria certa? As duas, certamente. A uns o Espírito é enviado de maneira
delicada, quase imperceptível, sem manifestação de dons, a outros, o Espírito é
enviado, distribuindo dons e havendo certos acontecimentos sobrenaturais, sem, contudo,
se pensar que será cópia do que aconteceu no Pentecostes.
3
— Sobre a função do Espírito
João
destaca o Espírito levando os discípulos à verdade (Jo 14.15-16; 16.13). Ele
ensinará e recordará tudo que Jesus disse aos discípulos (Jo 14.26; 16.14) e
anunciará também os acontecimentos futuros (Jo 16.13). O Espírito dará
testemunho de Jesus (Jo 15.26; 1 Jo 5.6; 5.7-8) e convencerá o mundo do pecado.
justiça
e julgamento (Jo 16.8).
Assim,
para o evangelista João, o Espírito tem mais uma função pedagógica, mais
doutrinária e dele vem o verdadeiro conhecimento. João chega a dizer que o
Espírito é o Espírito da verdade (Jo 14.17; Jo 15.26; Jo 16.13) e mais ainda: o
Espírito é a verdade (1 Jo 5.6).
Por
que ele enfatizou isto?
Está
relacionado à sua comunidade, que sofria influência de heresias, por volta do
ano 100. Uma dessas heresias afirmava que chegaríamos à verdade, através do
conhecimento. Daí ser necessário João enfatizar esta parte, este lado
pedagógico —ensino — do Espírito. É ele que nos levará a verdade. Dele vem o verdadeiro
conhecimento.
Já
o evangelista Lucas mostra o Espírito mais levando a agir, capacitando para ser
testemunha de Cristo e movendo os discípulos. Ele relaciona o Espírito com a
palavra “poder” em vários textos bíblicos (Lc 24.49; At 1.8; Lc 4.14; 1.35; At
8.19; 10.38, etc.).
Ele
também mostra o Espírito movendo os discípulos em vários lugares: João Batista
(Lc 1.15); Simeão (Lc 2.27); Jesus (Lc 4.1); Paulo e Barnabé (At 13.4).
É
o Espírito que dá coragem para pregar: Pedro (At 4.8); Paulo (At 13,9-10);
discípulos (At 4.29-31) e Jesus foi ungido pelo
Espírito
para a missão (Lc 4.18-19). Assim, o Espírito, segundo a ênfase de Lucas, está
relacionado mais com ação! Na verdade, Atos deveria se chamar “Atos do Espírito
Santo”, pois é exatamente isto que Lucas procura mostrar no Evangelho e no
livro de Atos.
Qual
das duas estaria certa? Certamente, as duas. O Espírito age de acordo com as
circunstâncias, orientando e capacitando a Igreja para a missão.
4
— Sobre o nome do Espírito
O
evangelista João o chama de Espírito Santo (Jo 1.34; 14.26); Espírito (Jo 1
.32; 7.39); Espírito da verdade (Jo 14.17; 16.13; 1 Jo 5.6). A característica
principal, porém, de João é chamar o Espírito de “Paráclito”, que pode ser
traduzido por ensinador, advogado, consolador, sustentador e protetor. Em três lugares,
ele é chamado assim (Jo 14.15-16; Jo 14.26; Jo 16.7).
Já
Lucas o chama de Espírito Santo (At 6.5); Espírito (At 20.22); Espírito do
Senhor (At 5.9) e também “a Promessa” (Lc 24.49; At 1.4; 2.39). Enquanto João
não fala nos termos “promessa” e “Espírito do Senhor”, Lucas não fala em
“Espírito da verdade” e “Paráclito”.
5 — Sobre uma segunda experiência com o Espírito Santo
João
não diz nada em seus escritos sobre uma segunda
experiência
com o Espírito. Ao contrário desta questão, João faz algumas afirmações que dão
a entender que não há uma segunda experiência com o Espírito: “A unção que
recebestes dele permanece em vós” (1Jo 2.27). Ele diz também que o Espírito
viria e permaneceria em Jesus (Jo 1.32; Jo 1.34). O Espírito ficaria para sempre
com os discípulos (Jo 14.15-16). Assim, ele não dá ênfase numa segunda
experiência com o Espírito.
Já
Lucas mostra que há diferença entre “ter” o Espírito e “ser” cheio do Espírito.
Das quinze vezes que “cheios” aparece no Novo Testamento, quatorze são usadas
por Lucas e uma por Paulo.
Entre
seus enfoques, este termo “cheio” é usado para mostrar a qualidade espiritual
da pessoa: Estevão (At 6.5); Barnabé (At 11.24). Chega ser uma condição ser
“cheio” do Espírito para ocupar cargos na Igreja primitiva: “Procurai, antes, entre
vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, e
nós os colocaremos na direção deste ofício” (At 6.3).
Assim,
Lucas mostra claramente, a possibilidade de uma 2ª experiência com o Espírito.
Esta experiência, porém, não se chama “batismo com o Espírito Santo” e sim ser
“cheio do Espírito” ou “plenitude do Espírito” como diz Paulo (Ef 5.18).
Promessas de Derramamento do Espírito
Antes
de ocorrer o Pentecostes, pelo menos, em onze ocasiões foi prometido o envio do
Espírito a diferentes pessoas no Novo Testamento. Hoje também a Bíblia continua
prometendo o dom do Espírito a todos que creem em Jesus Cristo, aceitando-o como
Senhor e Salvador. Porém, muita coisa tem sido prometida também por líderes
religiosos, sem contudo, haver uma sólida base bíblica.
Veremos
nestas “promessas” o que realmente a Bíblia prometeu às pessoas e, então,
poderemos tirar as nossas conclusões. Procuramos colocar de forma sistemática
para facilitar a compreensão e para se ter uma visão geral destas onze promessas.
I
— PROMESSA A JOÃO BATISTA
Quem
prometeu?
—
O anjo
Texto
bíblico: “Pois ele será grande diante do Senhor; não beberá vinha nem bebida
embriagante; ficará cheio do Espírito ainda no seio de sua mãe” (Lc 1.15).
O
que aconteceria, após João Batista receber o dom do Espírito?
—
Converteria muitos dos filhos de Israel (Lc 1.16);
—
Caminharia à frente e no espírito de Elias (Lc 1.17);
—
Converteria os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à prudência dos
justos (Lc 1.17);
—
Prepararia ao Senhor um povo bem-disposto (Lc 1.17).
II
— PROMESSA À MARIA
Quem
prometeu?
—
O anjo Gabriel.
Texto
bíblico: “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc 1.35).
O
que aconteceria, após Maria receber o dom do Espírito?
—
O poder do Altíssimo a protegeria com a sua sombra (Lc 1.35);
—
Ela daria à luz a um menino. Este seria chamado Filho de Deus (Lc 1.35).
III
— PROMESSA AO POVO.
Quem
prometeu?
—
João Batista.
Texto
bíblico: “Eu os batizo com água, mas vem aquele que é mais forte do que eu, do qual
não sou digno de desatar a correia das sandálias; ele vos batizará com o
Espírito Santo e com fogo” (Lc 3.16).
O
que aconteceria, após o povo receber o dom do Espírito?
—
Haveria a purificação de suas vidas (Lc 3.17).
IV—
PROMESSA AOS DISCÍPULOS
Quem prometeu?
—
Jesus.
Texto
bíblico: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos
filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem?” (Lc
11.13).
O
que aconteceria, após os discípulos receberem o dom do Espírito?
—
Não há nenhuma referência no texto acima.
—
O próprio Espírito, porém, já é uma boa dádiva (Lc 11.11-13)
V—
PROMESSA AOS DISCÍPULOS
Quem
prometeu
—
Jesus
Texto
bíblico: “Eis que eu vos enviarei o que meu Pai prometeu” (Lc 24.49).
O
que aconteceria, após eles receberem o Espírito?
—
Seriam capacitados com poder para realizar a Missão (Lc 24.49).
VI
— PROMESSA AOS JUDEUS
Quem
prometeu?
—
Jesus.
Texto
bíblico: “Ele falava do Espírito que, deviam receber os que nele cressem; pois
não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado” (Jo 7.39).
O
que aconteceria, após os judeus receberem o Espírito?
—
Rios de água viva correriam de seus ventres (Jo 7.38-39).
VII
— PROMESSA AOS DISCÍPULOS
Quem
prometeu?
—
Jesus.
Texto
bíblico: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, é
que vos ensinará tudo e vos recordará tudo que eu vos disse” (Jo 14.26).
O
que aconteceria, após os discípulos receberem o Espírito?
—
Ensinaria tudo aos discípulos (Jo 14.26).
—
O Espírito recordaria tudo o que Jesus disse aos
discípulos
(Jo 14.26).
VIII
— PROMESSA AOS DISCÍPULOS
Quem
prometeu?
—
Jesus.
Texto
bíblico: “Se me amais, observareis os meus mandamentos e rogarei ao Pai e ele
vos dará outro Paráclito” (Jo 14.15-16).
O
que aconteceria, após os discípulos receberem o Espírito?
—
O Outro Consolador ficaria para sempre com eles (Jo 14.16).
IX
— PROMESSA AOS DISCIPULOS
Quem
prometeu?
—
Jesus.
Texto
bíblico: “Se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Quando eu for, enviá-lo-ei
a vós” (Jo 16.7).
O
que aconteceria, após os discípulos receberem o Espírito?
—
Convenceria o mundo do pecado, justiça e juízo (Jo 16.8).
—
Conduziria os discípulos à verdade (Jo 16.13).
—
Anunciaria aos discípulos as coisas futuras (Jo 16.13).
X—
PROMESSA AOS DISCÍPULOS
Quem
prometeu?
—
Jesus.
Texto
bíblico: “João batizava com água, vós, porém, sereis batizados com o Espírito
Santo dentro de poucos dias” (At 1.5).
O
que aconteceria, após receberem o Espírito?
—
O texto não diz nada.
XI
— PROMESSA AOS DISCÍPULOS
Quem
prometeu?
—
Jesus.
Texto
bíblico: “Mas o Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis poder.
Sereis, então, minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e
até os confins da terra” (At 1.8).
O
que aconteceria, após eles receberem o Espírito?
—
Receberiam poder (At 1.8);
—
Seriam testemunhas de Jesus (At 1.8).
Aí
estão onze promessas do derramamento do Espírito. Que conclusão poderemos tirar
destas promessas? Será que todas estas promessas se aplicam a nós hoje? É o que
veremos logo a seguir:
Nós
dividiremos estas promessas em três diferentes grupos,
visando
uma melhor compreensão:
•
Promessa aos precursores de Jesus;
•
Promessa ao povo em geral;
•
Promessa aos discípulos.
1
— Promessa aos precursores de Jesus
Aqui
se enquadram João Batista e Maria, a mãe de Jesus. A João Batista, o Espírito o
impulsionaria para preparar um povo ao Senhor (Lc 1.17). É situação um pouco
diferente da nossa hoje, pois ele faria um trabalho para a “primeira” vinda de
Jesus ao mundo. Podemos dizer, porém, que isto pode ser aplicado a nós hoje,
pois Deus pode levantar diferentes pessoas —— através de seu Espírito — para
preparar um povo para a “segunda” vinda de Jesus ao mundo. Certamente, esta
obra é realizada principalmente pelos pastores.
À
Maria, o Espírito protegeria e faria nascer, através dela, um menino, que seria
o Filho de Deus e que salvaria o mundo. A segunda consequência, em Maria, não
se aplica mais hoje a ninguém, pois há somente um Filho Unigênito de Deus (Jo
3.16) e agora Jesus voltará nas nuvens para levar a sua Igreja (Mc 13.26; 1Ts
4.17).
A
primeira consequência, sim, se aplica a nós, pois o Espírito nos fortalece,
guarda e protege ainda hoje, desde que creiamos em Jesus Cristo, tendo assim o
Espírito em nossa vida.
2
— Promessa ao povo em geral
Aqui
se enquadram o povo, a quem João Batista pregava, e os judeus, a quem Jesus fez
a promessa. Qual a promessa feita a eles?
Ao
povo João Batista batizava, procurando levar ao arrependimento (At 13.24;
19.3). A purificação, sim, aconteceria através de Messias, que daria um batismo
que purificaria: “A pá está em sua mão; limpará a sua eira e recolherá o trigo
em seu celeiro; a palha, porém, ele a queimará num fogo inextinguível” (Lc 3.17).
Assim, se cumpria a profecia de Ezequiel sobre o Messias, que viria:
“Dar-vos-ei coração novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração
de carne. Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus
estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.26-27). Este termo
“batismo” significa também “limpo, lavo, purifico”.
Falando
aos judeus, posteriormente, Jesus afirmou que rios de água viva correriam do
seu ventre (Jo 7.38-39), mostrando assim a vida abundante que teriam aqueles
que nele cressem e recebessem o Espírito Santo.
Quanto
à promessa aos judeus, podemos dizer que ela ainda hoje se aplica a nós, pois o
Espírito nos faz ter vida em abundância. Em relação à promessa de João Batista,
podemos
dizer
que ela é um pouco diferente hoje. Lá o seu batismo levava ao arrependimento e
Jesus purificava. Agora, o próprio Espírito leva ao arrependimento (Jo 16.8) e,
somente, após a conversão se é batizado (At 2.38).
Batismo
e Espírito agora estão unidos, como afirmou Pedro: “Convertei-vos, e cada um de
vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos pecados, e
recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38).
3
— Promessa aos discípulos
Percebe-se
claramente que, em relação aos discípulos, o dom do Espírito está sempre
voltado para a missão. Cremos que o Espírito ainda hoje nos capacita e nos
ensina aquilo que devemos fazer para o evangelho ser pregado em todos os
lugares, de uma maneira eficiente.
É
interessante e importante ressaltar que em nenhuma ocasião é prometido algum
dom aos discípulos. Seriam, sim, capacitados de uma maneira eficiente para
cumprirem a missão de fazer o evangelho conhecido. Esta sempre foi a promessa
feita por Jesus aos discípulos. Os dons, naturalmente, seriam meios dos discípulos
serem capacitados.
Cremos
que estas onze “promessas” vistas e analisadas, mostram o verdadeiro motivo do
envio do Espírito às pessoas. Cremos também que são subsídios eficientes para compreendermos
melhor os “dez derramamentos do Espírito”, ocorridos no Novo Testamento.
Dez
Relatos Sobre Derramamento do Espírito Imaginem uma família morando no
interior, como quase sempre, muito pobre, sem rádio, televisão e vivendo,
praticamente, isolada do resto do mundo. Os filhos crescem somente em contato com
uma família, que mora pelas redondezas. Esta família, como a outra também, é
composta de gente de cor branca. Estas duas famílias sempre moraram ali. Para
elas, só existe gente de cor branca, pois elas não têm mais nenhum contato com
outra família e ninguém nunca lhes falou que existe gente de cor preta, mulata,
vermelha (índio), amarela (chineses), etc. Para elas, todos são brancos e
quando imaginam uma pessoa esta tem que ser branca.
Um
dia, porém, um membro da família achou uma revista à beira da estrada, bem
distante da sua casa. Nesta revista haviam figuras de pessoas de vários países.
Vendo esta revista, a família descobriu que não há somente pessoas de cor
branca no mundo.
A
partir daquele dia, eles mudaram de pensamento. Quando pensavam no ser humano,
não o imaginavam somente como branco, mas também preto, mulato, amarelo,
vermelho, etc.
Esta
história é contada para fazermos uma comparação com o conceito que muitos têm
sobre o derramamento do Espírito.
Alguns
cristãos só conhecem o exemplo de At 2.1-13, ou seja, Pentecostes. Para estes,
todo aquele que receber o Espírito Santo em sua vida, tem que ser à semelhança
do Pentecostes, ou seja, tem que haver “ruído”, “línguas de fogo”, “línguas
estrangeiras”, etc.
Este
capítulo tem o objetivo de mostrar que não existe somente gente de cor “branca”
no mundo, ou melhor, quer mostrar que não existe no Novo Testamento somente o
relato do derramamento do Espírito no dia de Pentecostes, mas que ainda há
outros nove relatos do derramamento do Espírito.
Conhecendo
estas outras “pessoas” de cor diferente, ou seja, conhecendo estes outros
relatos do derramamento do Espírito, que é diferente do Pentecostes, quando
imaginarmos o ser humano recebendo o Espírito Santo, o imaginaremos recebendo
de diferentes maneiras e não somente de uma forma.
Procure
estudar com toda atenção este capítulo sobre os dez relatos sobre derramamento
do Espírito e, se você só conhece “gente” de cor branca verá que há ainda
outras “pessoas” diferentes, mas que têm muito a oferecer também.
1
— O DOM DO ESPIRITO A ISABEL
Relato
bíblico: Lucas 1.39-45.
Texto
chave: “Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu
no ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1.41).
Como
era a sua vida, antes de receber o Espírito Santo?
—
Era justa e seguia os mandamentos do Senhor (Lc 1.6) — Iria ser a mãe de João
Batista (Lc 1.13).
Que
foi feito para ela receber o Espírito Santo?
—
Ela ouviu a saudação de Maria, que estava grávida de Jesus, e a criança (João
Batista) lhe estremeceu no ventre (Lc 1.41)
Que
aconteceu, após receber o dom do Espírito?
—
Foi-lhe revelado ser Maria a mãe de Jesus (Lc 1.42-45)
—
Ela profetizou que seria cumprido o que foi prometido por
Deus
(Lc 1.45)
II
— O DOM DO ESPÍRITO A ZACARIAS
Relato
bíblico: Lucas 1.59-67
Texto
chave: “Zacarias, seu pai, cheio do Espírito Santo, profetizou” (Lc 1 .67).
Como
era a sua vida, antes de receber o Espírito Santo?
—
Era sacerdote (Lc 1.5)
—
Era justo e seguia os mandamentos do Senhor (Lc 1.6)
—
Suas orações eram ouvidas (Lc 1.13)
—
Iria ser o pai de João Batista (Lc 1.13)
—
Zacarias duvidou que eles pudessem ter um filho (Lc 1.18-20)
—
Afirmou, escrevendo, que seu filho se chamaria João, como o anjo havia
determinado, o que mostra que obedeceu (Lc
1.59-63)
Que
foi feito para ele receber o dom do Espírito?
—
Escreveu que seu filho se chamaria João (Lc 1.63)
—
Voltou a falar e passou a bendizer a Deus (Lc 1.64)
Que
aconteceu, após receber o Espírito Santo?
—
Ele profetizou (Lc 1 .67)
III
— O DOM DO ESPÍRITO A JESUS CRISTO.
Relato
bíblico: Lucas 3 .21-22; João 1.32-34; Marcos 1.9-11; Mateus 3.13-17.
Texto
chave: “Ora, tendo o povo recebido o batismo, e no momento em que Jesus, também
batizado, achava-se em oração, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre
ele em forma corporal” (Lc 3.21-22).
Como
era a sua vida, antes de receber o Espírito Santo?
—
Havia sido concebido pelo Espírito Santo (Mt 1.20).
—
Era o Filho de Deus (Lc 1.35).
—
Cresceu em sabedoria, estatura e graça diante de Deus (Lc 2.52).
—
Aos 12 anos já estava no templo discutindo e ensinando aos doutores (Lc
2.42-48).
—
Tinha consciência que estava na casa (templo) de seu Pai (Lc 2.49).
Que foi feito para ele receber o dom do
Espírito?
—
Foi batizado com água (Lc 3 .21).
—
Estava em oração (Lc 3.21).
Que
aconteceu, após receber o Espírito Santo?
—
O Espírito permaneceu com ele (Jo 1 .33)
—
Foi proclamado por Deus como sendo o Filho de Deus (Lc 3.22).
—
Foi reconhecido por João Batista como aquele que batiza com o Espírito Santo
(Jo 1.33-34).
—
Foi levado para o deserto para ser tentado e se preparar para o Seu ministério
(Lc 4.1-2).
—
Iniciou a Sua missão (Lc 4.14-19).
IV
— O DOM DO ESPÍRITO AOS DISCÍPULOS
Relato
bíblico: João 20.19-23.
Texto
chave: “Dizendo isto, soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo”
(Jo 20.22).
Como
eram as suas vidas, antes de receberem o Espírito Santo?
—
Eram batizados, pois batizavam (Jo 4.1-2).
—
Já eram purificados (Jo 13.10; 15.3-4).
—
Em João 14. 1 Jesus pede que eles creiam nele, numa atitude salvadora.
—
Após a crucificação de Jesus ele ficaram com medo dos judeus (Jo 20.19).
—
Porém, ao ver o Senhor, exultaram (Jo 20.20).
Que
foi feito para eles receberem o dom do Espírito?
—
Certamente amaram ao Senhor Jesus e guardaram os Seus mandamentos (Jo 14.15-16).
—
Exultaram por ver o Senhor (Jo 20.20).
—
Jesus soprou sobre eles o Espírito, como havia prometido (Jo 20.21-22)
Que
aconteceu, após receberem o Espírito Santo?
—
Foram enviados em missão (Jo 20.21).
—
Foi dado a eles autoridade ou o dom de perdoar pecados (Jo 20.23).
V
— O DOM DO ESPÍRITO AOS DISCIPULOS
Relato
bíblico: Atos 2.1-21
Texto
chave: “De repente, veio do céu um ruído semelhante ao soprar de impetuoso
vendaval, e encheu toda a casa onde se achavam. E apareceram umas como línguas
de fogo, que se distribuíram e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram
cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o
Espírito os impelia falassem” (At 2. 1-4).
Como
eram suas vidas, antes de receberem o Espírito Santo?
—
Já tinham seus nomes escritos no livro da vida (Lc 10.17-20).
—
Parece que, inicialmente, Pedro não era convertido (Lc 22.32), pois negou
também a Jesus (Lc 22.54-62).
—
Mas, posteriormente, estiveram com Jesus e esperavam a promessa do derramamento
do Espírito (Lc 24.49; At 2.1).
—
Mais à frente — At 11.17 — Pedro esclarece que eles receberam o Espírito Santo
porque creram em Jesus.
Que
foi feito para eles receberem o Espírito Santo?
—
Esperavam a promessa (Lc 24.49; At 2.1).
—
Viviam em oração (At 1.14).
—
Creram em Jesus, numa atitude salvadora (At 11.17)
Que
aconteceu, após receberem o dom do Espírito?
—
Falaram em línguas estrangeiras, anunciando o evangelho a todos os povos (At
2.4-13).
—
Profetizaram, cumprindo a profecia de Joel (At 2.15-21).
VI
— O DOM DO ESPIRITO AOS JUDEUS
Relato
bíblico: Atos 2.36-47.
Texto
chave: “Convertei-vos, e seja cada um de vós batizado em nome de Jesus Cristo,
para a remissão dos pecados, e recebereis, então, o dom do Espírito Santo” (At
2.38).
Como
eram as suas vidas, antes de receberem o dom do Espírito?
—
Eram piedosos (At 2.5).
—
Negaram e crucificaram a Jesus (At 2.36).
Que
foi feito para eles receberem o Espírito Santo?
—
Se converteram (At 2.38, 41).
—
Foram batizados (At 2.38, 41).
—
Tiveram os pecados perdoados (At 2.38).
Que
aconteceu, após receberem o Espírito Santo?
—
Mostraram ter uma nova vida.
—
Preocupando-se em receber o ensino dos apóstolos (At2.42).
—
Participando da comunhão fraterna (At 2.42).
—
Participando da ceia (At 2.42).
—
Praticando a oração (At 42).
—Tendo
temor de Deus (At 2.43).
VIl
— O DOM DO ESPÍRITO AOS SAMARITANOS
Relato
bíblico: Atos 8.5-17.
Texto
chave: “Impunham-lhes, pois, as mãos, e eles recebiam o Espírito Santo” (At
8.18).
Como
eram as suas vidas, antes de receberem o dom do Espírito?
—
Eles esperavam a vinda do Messias (Jo 4,25-30).
—
Posteriormente, acreditaram na pregação de Filipe, que anunciou-lhes Jesus
Cristo, o Messias (At 8.12).
—
Eles receberam o batismo (At 8.12).
Que foi feito para eles receberem o Espírito
Santo?
—
Pedro e João foram à Samaria (At 8.14).
—
Eles oraram pelos samaritanos (At 8.15).
—
E impuseram as mãos sobre eles (At 8.17).
Que
aconteceu, após receberem o Espírito Santo?
—
O texto não relata nenhum acontecimento com eles.
—
Diz, sim, que foi percebido que eles receberam o Espírito Santo (At 8.18)
VIII
— O DOM DO ESPÍRITO A PAULO
Relato
bíblico: Atos 9.1-20
Texto
chave: “Ananias, partiu, entrou na casa, impôs-lhe as mãos e disse: Saulo, meu
irmão, quem me envia é o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho por onde
vinhas, a fim de recuperares a vista e ficares cheio do Espírito Santo” (At
9.17).
Como
era a sua vida, antes de receber o Espírito Santo?
—
Ele perseguia os cristãos (At 8. 1; 9. 1-2).
—
Mas teve o encontro com o Senhor (At 9.3-6).
—
Antes de receber o Espírito, estava em oração (At 9.11).
—
E, certamente, jejuava (At 9. 19).
Que
foi feito para ele receber o dom do Espírito?
—
Ananias, enviado por Jesus, lá chegou (At 9.15-17).
—
Lá impôs as mãos sobre Paulo (At 9.17).
—
Para Paulo recuperar a vista (At 9. 17-18).
—
E ficar cheio do Espírito Santo (At 9.17).
Que
aconteceu, após receber o dom do Espírito?
—
Paulo foi batizado (At 9.19).
—
Alimentou-se e se sentiu reconfortado (At 9.19).
—
Passou alguns dias com os discípulos (At 9.19).
—
Então, passou a pregar que Jesus é o FiIho de Deus (At 9.20).
IX
— O DOM DO ESPÍRITO AOS GENTIOS
Relato
bíblico: Atos 10.1-11, 1-18
Texto
chave: “Enquanto Pedro falava, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam
a palavra” (At 10.44).
Corno
eram as suas vidas, antes de receberem o dom do Espírito?
—
Cornélio, era piedoso e temente a Deus (At 10.1-2).
—
Ele dava muitas esmolas e orava a Deus (At 10.2).
—
Deus viu as esmolas e ouviu as orações de Cornélio (At 10.4).
—
O anjo lhe apareceu em uma visão e mandou ele chamar Pedro (At 10.3-5).
—
Posteriormente, Pedro lhes diria palavras de salvação, a ele e a sua família
(At 11.13-14).
—
Eles se converteram (At 11.15).
Que
foi feito para eles receberem o dom do Espírito?
—
Pedro lhes disse palavras de salvação (At 11.14; 10.44).
—
Eles creram em Jesus Cristo (At 11.17).
Que
aconteceu, após eles receberem o dom do Espírito?
—
Falaram em línguas (At 10.46).
—
Glorificaram a Deus (At 10.46).
—
Foram batizados (At 10.47-48).
X
— O DOM DO ESPIRITO AOS DISCIPULOS DE ÉFESO
Relato
bíblico: Atos 18.24, 19.7
Texto
chave: “Tendo ouvido isto, receberam o batismo em nome do Senhor Jesus, e
quando Paulo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo veio sobre eles...” (At
19.5-6).
Como
eram as suas vidas, antes de receberem o dom do Espírito?
—
Eram discípulos de João Batista (At 19.3).
—
Haviam sido batizados no batismo de João Batista (At 19.3-4).
—
Apolo, provavelmente, os orientou no caminho do Senhor (At 18.24-25).
—
Eles tinham, porém, um cristianismo incompleto, pois não
conheciam
o batismo de Jesus (At 18.25; 19.3).
—
E não tinham ouvido falar no Espírito Santo (At 19.2).
Que
foi feito para eles receberem o dom do Espírito?
—
Paulo os orientou (At 19.2-4).
—
Eles foram batizados em nome do Senhor Jesus (At 19.5).
—
Paulo impôs as mãos sobre eles (At 19.6).
Que
aconteceu, após eles receberem o dom do Espírito?
—
Falaram em línguas (At 19.6).
—
E profetizaram (At 19.6).
Análise
da Situação em que Foi Recebido o Dom do Espírito
Visto
sistematicamente os dez relatos sobre o envio do Espírito no Novo Testamento,
procuraremos agora estudar estes derramamentos do Espírito. Podemos dizer,
inicialmente, que todos os casos devem ser estudados dentro de sua situação especifica,
pois só assim poderemos realmente compreendê-los.
Estes
dez relatos se dividem em quatro situações diferentes:
•
Os que receberam a bênção antes de Jesus nascer
•
O exemplo do próprio Jesus.
•
Os que receberam a bênção no Pentecostes.
•
Os que receberam a bênção após o Pentecostes.
Procuraremos,
assim, colocar estes dez relatos dentro destas quatro situações.
I
— OS QUE RECEBERAM A BÊNÇÃO ANTES DE JESUS NASCER
No
caso citado, foram somente dois: Isabel e Zacarias. Eles viveram no período em
que se aproximava o nascimento de Jesus.
Agora
vêm, então, algumas perguntas:
1
— Como eram suas vidas, antes de receberem o Espírito Santo?
A
Bíblia afirma que ambos eram justos diante de Deus (Lc 1.6). Eles também
seguiam corretamente os mandamentos de Deus (Lc 1.6). Deve-se registrar o fato
de Zacarias ser sacerdote (Lc 1.5) e as suas orações serem ouvidas (Lc 1.13), o
que mostra o seu grau de espiritualidade e sua aprovação por Deus. Algo que deve
ser ainda acrescentado é que ambos iriam ser os pais de João Batista (Lc 1.13),
o precursor de Jesus. Portanto, muitos fatores positivos teriam contribuído
para que eles recebessem Espírito Santo em
suas vidas.
2
— Que foi feito para eles receberem o Espírito Santo?
Podemos
dizer que nada de especial foi feito! Nada foi feito com o objetivo de receber
o dom do Espírito. Foi tudo de uma maneira natural e eles não cobiçavam isto!
Isabel, por exemplo, recebeu o dom do Espírito, quando Maria, sua prima, foi
visitá-la.
Maria
estava grávida de Jesus e quando esta chegou, a criança (João Batista), que
estava no interior de Isabel, estremeceu de alegria e, então, Isabel ficou
cheia do Espírito. Portanto, Isabel nada de especial fez. Deus lhe deu o
Espírito por tudo que ela era anteriormente e também para se cumprir urna
promessa do anjo:
João
Batista “ficará cheio do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe” (Lc 1.15).
Então, podemos até dizer, que para João Batista ficar cheio do Espírito, já, no
seio materno, em preciso também Isabel ficar cheia do Espírito, o que de fato
ocorreu: “Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1.41). E Zacarias? Zacarias
também nada de especial fez para receber o Espírito Santo. Ele não planejou nem
tinha esta intenção, de uma maneira declarada.
Como
ele veio a ficar cheio do Espírito? Ele estava mudo por “castigo”, pois, na
verdade, duvidou que eles poderiam ter um filho naquela idade, como mostra o
texto: “De que modo saberei disto?
Pois
eu sou velho e minha esposa é de idade avançada” (Lc 1.18).
O
anjo, nesta ocasião, havia lhe dito, porém para ele colocar o nome de João na
criança (Lc 1.13). Quando a criança nasceu, algumas pessoas queriam colocar o
nome de Zacarias no menino (Lc 1.59). Isabel discordou e disse que a criança se
chamaria João, ao que replicou alguém: “Em tua parentela não há ninguém que tenha
este nome!” (Lc 1.61). Perguntado, Zacarias escreveu que a criança se chamaria
João! Neste exato momento ele voltou a falar e passou a bendizer a Deus (Lc
1.63-64). Por que ele voltou a falar? Mui certamente porque acreditou na
promessa de Deus de que aquele menino que ali estava era o prometido de Deus
para ser o precursor de Jesus. Provavelmente, ele deve ter tido a tentação de
aceitar o nome de Zacarias para a criança, mas ele passou por cima disto tudo e
creu na promessa de Deus, por isso, voltou a falar.
Foi
isto que aconteceu, antes dele receber o Espírito Santo.
Logo
a seguir o texto diz que Zacarias estava cheio do Espírito Santo (Lc 1.67).
Outra tradução diz: “Zacarias, seu pai, encheu-se do Espírito Santo”. Portanto,
nada programado ou de especial foi feito com o intuito de vir a receber o dom
do Espírito.
3
— Que aconteceu, após receberem o Espírito Santo?
Podemos
dizer que dois tipos de dons foram dados a eles, sendo que um aconteceu duas
vezes e o outro aconteceu somente uma vez. Isabel lhe teve revelado ser Maria a
mãe do Senhor Jesus (Lc 1.42-43), pois ninguém lhe havia dito que Maria seria a
mãe de Jesus Cristo. Posteriormente, ela profetizou que o que havia sido dito
sobre o menino Jesus, se cumpriria (Lc 1.45). Já Zacarias profetizou, no
momento de ficar cheio do Espírito (Lc 1.67). Em outras palavras, podemos dizer
que foi dado a eles o dom de falar de maneira inspirada por Deus.
II
— O EXEMPLO DO PRÓPRIO JESUS
1
— Como era sua vida, antes de receber o Espírito Santo?
Sua
vida era totalmente cheia da graça de Deus. Ele já havia sido concebido pelo
Espírito Santo (Mt 1.20), portanto, antes de nascer, Deus, o Pai, já atuava na
sua vida. João diz que “ele é o Verbo que se fez carne e habitou entre nós” (Jo
1.14). Jesus cresceu também em sabedoria, graça e estatura, tendo a aprovação
de Deus (Lc 2.52). Ele tinha consciência também de quem era realmente Filho (Lc
1.35; 2.49).
Portanto,
a vida de Jesus antes dele receber o Espírito Santo, era íntegra e voltada para
Deus. Na verdade, não poderia ser diferente, pois ele era o próprio Deus (Jo
1.14).
2
— Que foi feito para ele receber o Espírito Santo?
Jesus
teve que passar por tudo aquilo que o ser humano passa aqui na terra. Ele quis
mostrar com isto que o que ele fez pode também ser conseguido por todas as
pessoas. Por isso, ele aceitou passar também pelo batismo de João Batista, como
todo o povo (Lc 3.21) e praticava a oração (Lc 3.21), como todo bom judeu.
O
texto bíblico relata estes dois acontecimentos que antecederam o recebimento do
Espírito Santo, ou seja, o batismo e a oração. Cremos que fator importante
também foi a obediência ao Pai e a humildade de Jesus, pois sendo Deus aceitou
ser batizado por João Batista, como as outras pessoas.
3
— Que aconteceu, após Jesus receber o dom do Espírito?
Os
textos dos evangelhos não relatam nenhum dom sendo dado a Jesus. Na verdade —
afirmam alguns — Jesus não precisava receber nenhum dom. Ele como divino, como
Deus, já sabia de tudo e podia tudo. Mas não podemos afirmar isto com exatidão.
Logo à frente, o próprio Jesus diz que o Espírito o ungiu para libertar as
pessoas, enfim, para realizar a sua missão, o que mostra que houve a
necessidade de Jesus receber o Espírito Santo para realizar o seu ministério.
Mas,
os textos relatam apenas que, logo após receber o Espírito, este permaneceu
nele (Jo 1.33). Ele foi também proclamado por Deus como Seu legítimo filho (Lc
3.22) e o próprio João Batista o reconheceu como Filho de Deus (Jo 1.34). Ele,
posteriormente, foi levado ao deserto para a preparação do seu ministério (Lc
4.1-2), pois uma vez provado, poderia realizar sua missão. Portanto, após o recebimento
do Espírito, Jesus não teve nenhuma manifestação sobrenatural na sua vida, a
não ser a voz vinda do céu.
III
— OS QUE RECEBERAM A BÊNÇÃO NO PENTECOSTES
Neste
caso foram somente os discípulos de Jesus, mas através de duas versões:
apóstolo João (Jo 20.21-23) e Lucas (At 2.1-4).
Como
entender estas duas “versões”? Nós temos que entender que o evangelho é
“segundo”, ou seja, segundo a interpretação ou ênfase do evangelista. Lucas,
por exemplo, que escreveu o evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, narra com detalhes
o nascimento de Jesus (Lc 2.1-20). Já o evangelho de João não dá ênfase a
detalhes e sim procura ser objetivo na descrição do envio de Jesus ao mundo.
Ele apenas diz que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14).
Por
haver estas diferenças de ênfases, não quer dizer que a Bíblia está em contradição ou que Jesus
nasceu duas vezes. A mesma coisa podemos dizer em relação ao envio do Espírito Santo.
Enquanto Lucas dá muitos detalhes sobre o derramamento do Espírito (At 2.1-13),
dizendo, inclusive, que isto aconteceu após Jesus subir aos céus (At 1.8), o
apóstolo João não entra em detalhes. Ele é objetivo na sua narração (Jo
20.21-22) e diz ainda que o Espírito foi enviado, antes de Jesus subir aos
céus. Tudo é questão de ênfase em algum fato, com emissão ou acréscimo de determinadas
partes, a fim de que aqueles que recebessem o evangelho pudessem entender.
Portanto, neste caso, foi só um o derramamento do Espírito, mas com duas
ênfases diferentes.
2
— Que foi feito para eles receberem o Espírito o Espírito Santo?
Podemos
dizer que num primeiro momento eles já eram purificados (Jo 13.10) e tinham
seus nomes escritos no Livro da vida (Lc 10.17-20). Eles já haviam sido
batizados, pois batizavam (Jo 4.1-2; Mt 28.18-20).
Algumas
dúvidas, porém, surgem se eles eram realmente convertidos, pois em Jo 14.1
Jesus pede que eles creiam nele, isto numa atitude salvadora. Jesus diz também
que Pedro ainda se converteria (Lc 22.32) e ele mesmo negou a Jesus (Lc
22.51-62).
Mas,
nos momentos que antecederam ao recebimento do Espírito, tudo indica que as
coisas estavam nos seus devidos lugares. Lucas diz que eles esperavam a
promessa de Jesus (Lc 24 49: At 2.1). Eles viviam também em oração (At 1.14) e,
na versão de João, eles exultaram ao ver o Senhor Jesus (Jo 20.20).
A
descrença não havia mais, pois o próprio Pedro, em acontecimento posterior,
relembraria o Pentecostes, dizendo que eles receberam o Espírito Santo porque
creram em Jesus (At 11.17), o que confirma o que Jesus disse em Jo 7.39: “Ele
falava do Espírito que, deviam receber os que nele cressem... “. Portanto, no
momento que antecedeu ao recebimento do Espírito, suas vidas espirituais eram
adequadas.
2
— Que foi feito para eles receberem o Espírito Santo?
Segundo
a versão de João, nada foi feito de especial, no momento em que antecedeu ao
recebimento do Espírito. A única coisa que é dita é que eles exultaram por ver
o Senhor Jesus (Jo 20.20). Jesus, sim, fez algo para eles receberem o Espírito
Santo: soprou sobre eles e disse “recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22).
Já
Lucas — autor de Atos — mostra toda uma preparação para o recebimento do
Espírito. Eles estavam em oração (At 1.14) e esperavam a promessa (Lc 24.29; At
1.45; At 1.8; At 2.1). O elemento “crer” também é importante ressaltar, pois
Pedro em outra ocasião diz isto (At 11.17).
É
importante, porém, lembrar que estes acontecimentos preparatórios para a vinda
do Espírito não são sugeridos para seguir, como veremos nos próximos casos.
3
— Que aconteceu, após eles receberem o Espírito Santo?
Segundo
a versão do apóstolo João, não houve fenômeno algum. Foram, sim, enviados em
missão (Jo 20.21) e lhes foi dada a autoridade ou o dom de perdoar pecados (Jo
20.23). Já na versão de Lucas aconteceram fenômenos: tiveram o dom de línguas e
o evangelho foi anunciado a todos os povos ali presentes (At 2 4-13).
Posteriormente, Pedro em sua pregação, diria que eles profetizaram (At
2.15-21), cumprindo assim a profecia de Joel.
Como
resolver a questão: foram línguas ou profecias?
A
conclusão que se chega é que este “ser cheio do Espírito” (At 2.4) — bem como
Lc 1.41; Lc 1.67; At 4.8: At 4.31; At 7.55; At 9.17; At 13.9 — significa acima
de tudo profetizar, ou seja, terem as suas palavras inspiradas por Deus.
Portanto, Deus lhes concedeu a capacidade naquele momento de falar a linguagem
dos povos ali reunidos e eles, então, profetizaram, ou seja, anunciaram os oráculos
de Deus, através da inspiração divina.
IV—
OS QUE RECEBERAM APÓS O PENTECOSTES A BÊNÇÃO
Estes
que viveram após o derramamento do Espírito no Pentecostes se encontram em
outra situação.
Dividiremos
em três grupos:
•
Os tementes a Deus.
•
Os que creram em Cristo.
•
Os que tinham um cristianismo incompleto.
1
— Os tementes a Deus
Neste
grupo se incluem os judeus e os gentios.
a)
Como eram as suas vidas, antes de receberem o Espírito?
Quando
ocorreu o Pentecostes, os judeus foram contados, juntamente com os outros povos
ali reunidos, como “homens piedosos” (At 2.5), ou seja, que têm temor de Deus,
que prestam devoção a Deus. Foi a estes que Pedro se dirigiu logo depois: “Homens
da Judéia e habitantes todos de Jerusalém” (At 2.14), apesar destes terem
“crucificado a Jesus” (At 2.36).
E
os gentios que se incluem entre os “tementes a Deus”?
Além
destes que se encontravam juntamente com os judeus, portanto também
considerados “piedosos”, os gentios que estavam na casa de Cornélio, por
ocasião do “Pentecostes dos Gentios”, eram também tementes a Deus.
Cornélio
era chamado de “piedoso e temente a Deus” (At 10.2) e o texto diz mais: “com
toda a sua casa” (At 10.2), o que significa parentes e criados. Podemos dizer
que a situação destes é semelhante à de Isabel e Zacarias para receberem o
Espírito Santo: todos eles eram piedosos e tementes a Deus.
Porém,
se isto bastou a Isabel e Zacarias, a situação após Jesus realizar a sua obra,
exige algo mais: conversão! É o que veremos no item, logo a seguir.
b)
Que foi feito para eles receberem o Espírito Santo?
Com
relação aos judeus, primeiramente, eles creram, se convertendo (At 2.38, 41).
Eles, posteriormente, foram batizados e tiveram os pecados perdoados (At 2.38,
41). Esta foi a promessa que Pedro fez a eles em sua pregação, logo, foi exatamente
isto que foi feito para eles receberem o Espírito Santo, apesar de isto não ser
falado no texto bíblico.
E
os gentios? Com os gentios, Pedro também lhes disse palavras de salvação (At
11.14; 10.44) e o elemento crer também foi necessário acontecer para eles
receberem o Espírito (At 11.17). A diferença que existe entre os gentios e os
judeus, neste caso, é que, enquanto os judeus primeiramente foram batizados
para depois receberem o Espírito Santo, com os gentios aconteceu o contrário: primeiro
eles receberam o Espírito Santo e, posteriormente, foram batizados (At
10.47-48), o que mostra que não há uma fórmula exata para receber o Espírito,
em relação ao batismo.
c)
Que aconteceu após eles receberem o Espírito Santo?
No
caso dos judeus, o texto não relata nenhum fenômeno acontecido. A ênfase que o
autor de Atos procura dar é em relação à vivência que os convertidos passaram a
ter: se mostraram assíduos aos ensinamentos dos apóstolos, à comunhão fraterna,
participando da ceia e praticando a oração (At 2-42).
Parece
que o ato do recebimento do Espírito não foi tão importante destacar,
preferindo Lucas descrever como viviam, após a conversão e o recebimento do
Espírito, o que na verdade deve servir como exemplo para nós.
Dizer
que eles não receberam o Espírito Santo, não tem fundamento! Quem antes
consentiu na morte de Jesus e agora passa a viver em comunhão fraternal, em
oração e participando da ceia e dos ensinamentos acerca de Jesus, teve ou não
teve uma mudança radical em sua vida? Isto é obra de quem? É evidente que só
pode ser do Espírito Santo!
E
aos gentios, que aconteceu?
Já
os gentios tiveram alguns fenômenos, após receberem o Espírito do Senhor em
suas vidas: falaram em línguas e glorificaram a Deus (At 10.46). Por que aconteceram
estes fenômenos? Alguns autores afirmam que isto foi permitido por Deus para
mostrar que o “Pentecostes dos gentios” foi igual ao “Pentecostes dos
judeu-cristãos”, ou seja, teve o mesmo valor. Isto parece que tem um fundo de
verdade, pois Pedro, posteriormente, teve que ter bons argumentos para
justificar todo o seu procedimento (At 11.1-18), embora ele não use o argumento
“línguas estranhas” para provar que eles receberam o Espírito.
2
— Os que creram em Cristo
Os
Samaritanos e Paulo são colocados como sendo casos semelhantes porque ambos
creram em Cristo e, depois, alguém teve que chegar até eles para estes
receberem o dom do Espírito.
a)
Como eram as suas vidas, antes de receberem o Espírito?
Os
samaritanos esperavam a vinda do Messias (Jo 4.25-30), como os judeus naquele
tempo. Quando Filipe lá chegou, anunciando Jesus Cristo, eles acreditaram na
sua pregação e receberam o batismo (At 8.12). Portanto, antes de receber o Espírito,
eles já eram convertidos e batizados.
E
a situação anterior de Paulo? Paulo tem apenas a parte negativa de ter
perseguido os cristãos e ter consentido na morte de Estevão (At 8.1; At 9.1).
Quando procurava perseguir outros, ele teve o encontro com Jesus (At 9.3-6) e
certamente a sua conversão. O texto à frente diz que ele orava (At 9.11) e certamente
jejuava (At 9.19).
Portanto,
os samaritanos e Paulo eram, na verdade, cristãos, antes de receberem o dom do
Espírito.
b)
Que foi feito para eles receberem o Espírito Santo?
Nos
dois casos, foi enviado alguém para eles receberem o dom do Espírito: aos
samaritanos foram Pedro e João (At 8.14) e a Paulo foi enviado Ananias (At
9.17). No caso de Paulo, o texto só nos permite dizer que Ananias impôs as mãos
sobre ele, isto para ele recuperar a vista e ficar cheio do Espírito (At 9.17).
Assim, nos dois casos houve imposição das mãos. Seria esta a atitude a tomar com
aqueles que não receberam o dom do Espírito no momento de crerem? Isto parece
ter um fundo de verdade, pois com os discípulos de Éfeso — como veremos adiante
houve o mesmo procedimento.
c)
Que aconteceu após eles receberem o Espírito Santo?
Em
Samaria o texto não relata que houve algum fenômeno. O único fato interessante
a notar é que foi percebido, através da visão, que eles receberam o dom do
Espírito (At 8.18), a ponto de Simão, o magno, desejar comprar o poder de
conceder o Espírito Santo (At 8.18-19).
Levantar
indagações sobre como seria este “ver” por Simão, o magno, seria mera
especulação. Não se pode dizer que ele viu por ser “línguas estranhas” que eles
falavam, pois o texto apenas diz que “viu que o Espírito Santo era dado pela
imposição das mãos dos apóstolos” (At 8.18). Além do mais, no caso teria que
ser “ouvir” e não “ver”, como aconteceu no Pentecostes: “Pois cada qual os
ouvia falar em sua própria língua” (At 2.6).
Dizer
que este “ver” significa que ele “observou” também não tem base alguma, pois a
palavra no original grego — oram — significa olho, vejo, contemplo. Portanto,
as evidências maiores são que não houve mesmo manifestação sobrenatural. E no
caso de Paulo?
No
caso de Paulo, o texto bíblico mostra a promessa de Ananias a Paulo, dizendo
que ele receberia o Espírito Santo (At 9.17), mas depois nem relata o momento
que ele recebeu o dom do Espírito. Isto, porém, não nos impede de chegar à
conclusão de que este fato aconteceu, pois Ananias disse que ele receberia,
pois esta era a vontade do Senhor. Ananias lhe disse que ele recuperaria a
vista e ficaria cheio do Espírito. Ele recuperou a vista, quando Ananias lhe
impôs as mãos — e imposição das mãos é um meio de comunicar o Espírito — logo
ele recebeu também esta bênção.
Que
aconteceu após?
Ele
foi batizado (At 9.18), alimentou-se e se sentiu reconfortado (At 9.19). Paulo
passou também alguns dias com os discípulos (At 9.19) e o mais importante: ele passou
a pregar que Jesus é o Filho de Deus (At 9.20).
Não
há muito indício de que aconteceu algum fenômeno.
Tudo
indica que houve, sim, capacitação para ele pregar o evangelho. Se houve algum
dom dado a Paulo naquele momento, este foi profecia ou o dom dele falar
inspirado por Deus. Este ser “cheio” do Espírito tem este sentido e o texto diz
que ele passou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Mais à
frente, em outra ocasião, o texto mostra Paulo falando inspirado por Deus: “Paulo,
cheio do Espírito Santo, fixou nele o olhar, e disse: Ó filho do diabo, cheio
de toda a falsidade e malícia, inimigo de toda justiça, não cessas de perverter
os caminhos do Senhor, que são retos? Eis que agora o Senhor faz pesar sobre ti
a sua mão...“ (At 13.9-11). Aqui mostra que Paulo estaria fazendo o mesmo que
fez, após receber o dom do Espírito. Inicialmente, o texto não nos permite
identificar que houve algo com Paulo. Se houve, foi o dom de falar inspirado
por Deus, ou seja, profecia.
3
— Os que tinham um cristianismo incompleto
Aqui
se incluem unicamente os discípulos de João Batista, que Paulo encontrou em
Éfeso.
a)
Como eram as suas vidas, antes de receberem o dom do Espírito?
Eles
eram discípulos de João Batista (At 19.3). Eles já haviam sido também
batizados, só que num batismo que tinha o objetivo de levar ao arrependimento e
a intenção de preparar um povo para a vinda do Messias (At 19.4).
Parece
que Apolo os orientou no caminho do Senhor (At 18.24-25) ou pelo menos tentou.
Tudo indica que ele era entusiasmado, mas faltavam alguns conhecimentos básicos
do cristianismo. Tanto é verdade que “Priscila e Áquila, que o tinham ouvido,
tomaram-no consigo e lhe expuseram mais exatamente o Caminho” (At 18.26). Este
Apolo teria estado com os discípulos de Éfeso, mas não deve ter dado
ensinamento sólido a estes discípulos, pois ele carecia também deles. Assim,
tudo indica que eles tinham um cristianismo incompleto, pois não conheciam o batismo
de Jesus (At 18.25; 19.3-4) e nem conheciam o Espírito Santo (At 19.2).
Portanto, estes discípulos eram piedosos, mas faltavam alguns elementos para se
tornarem verdadeiros cristãos.
b)
Que foi feito para eles receberem o dom do Espírito?
Tudo
começou com a pergunta de Paulo: “Recebeste o Espírito Santo quando abraçastes
a fé?” (At 19.2). Como não haviam recebido, Paulo lhes pergunta agora sobre o
batismo que tinham sido batizados, o que dá a entender que há uma ligação entre
os dois, embora não se possa afirmar isto com exatidão e na conclusão — última
parte do livro — veremos realmente que não é bem assim. O que se pode dizer é
que de início Paulo percebeu que havia algo errado com eles. Por isso, ele
tomou algumas medidas: orientou-lhes (At 19.2-4); foram batizados em nome de Jesus
Cristo (At 19.5) e Paulo impôs as mãos sobre eles (At 19.6), quando eles,
então, receberam o dom do Espírito.
c)
Que aconteceu após eles receberem o Espírito Santo?
Diferentemente
dos gentios e semelhantemente ao Pentecostes, eles receberam dois tipos de
dons: línguas e profecia (At 19.6). Portanto, neste caso houve manifestação
sobrenatural.
Este
fato ocorreu cerca do ano 55 d.C., ou seja, uns 25 anos após o Pentecostes em
Jerusalém. Mostrando que os dons não devem ser o objetivo maior do cristão,
Paulo, cinco anos após este derramamento do Espírito, escreve sua carta aos
efésios pedindo que eles busquem a plenitude do Espírito (Ef 5. 18), ou seja,
que se encham plenamente da presença e graça de Deus em suas vidas. Outros
conselhos, em relação ao Espírito, Paulo daria também aos efésios: “sejais
fortalecidos em poder pelo seu Espírito” (Ef 3.16) e “não entristeçais o
Espírito Santo de Deus” (Ef 4.30). Ele diria também para “orai em todo tempo,
no Espírito” (Ef 6.18). Assim, ao receberem o “batismo do Espírito”, temos
outros alvos a alcançar e cuidados a tomar em relação ao Espírito.
As Quatro Conclusões Fundamentais
Este
estudo sobre o derramamento do Espírito, pelo menos em dez casos no Novo
Testamento, nos leva a algumas conclusões, que julgamos essenciais:
1
— Nem todo caso se aplica a nós hoje
Não
se pode de maneira alguma pegar um exemplo de recebimento do Espírito e
transportá-lo para hoje, querendo aplicá-lo às pessoas, sem ver as
circunstâncias que levaram a tal acontecimento, naquela época. Se fizermos
isto, correremos o risco de seguirmos um exemplo passado, que não se aplica
mais a nós hoje e poderemos causar também frustração ou descrença em algumas
pessoas.
Mas
alguém pode dizer: a Bíblia não é para ser seguida?
Sim!
Mas assim como não poderemos desejar que todos tenham a conversão, semelhante
ao apóstolo Paulo na estrada de Damasco, pois as conversões acontecem em
situações diferentes, no mesmo sentido, o recebimento do Espírito acontece em
situações diferentes.
Os
casos de Isabel e Zacarias, por exemplo, foram em situações especiais. O
recebimento do Espírito aconteceu, antes mesmo de Jesus Cristo — aquele que
enviaria o dom do Espírito aos discípulos — vir a este mundo.
Mas
como se pode receber o dom do Espírito, antes dele ser enviado por Jesus?
Acontece que o Espírito sempre existiu. Na própria formação do mundo, ele já
agia: “O Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn 1.2). A diferença que
existe é que, antes do envio do Espírito por Jesus, ele só agia nas pessoas em ocasiões
especiais e para determinados fins. O Espírito não permanecia na pessoa. Sua
permanência era temporária. A partir de Jesus, a situação muda e a ação do
Espírito é ampliada. Com Jesus o Espírito Santo já permanece nele. Foi assim
que Deus falou a João Batista: “Aquele sobre quem vires o Espírito descer e
permanecer...” (Jo 1.33).
Mas
com os discípulos foi a mesma coisa?
Com
os discípulos aconteceria o mesmo: “...ele vos dará outro Consolador para que
convosco permaneça para sempre” (Jo 14.16). Por isso, Paulo mais tarde diria:
“Se o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos habita em
vós...” (Rm 8.11).
Portanto,
o caso de Isabel e Zacarias está mais para o período do Antigo Testamento do
que para o Novo Testamento.
Querer
que aconteça o mesmo às pessoas hoje — seguindo os passos de Isabel e Zacarias
— é querer repetir a história. O caso de Jesus também foi um caso único!
Talvez, o exemplo dele pudesse ser seguido por nós, sem porém, desejar que
todos tenham o mesmo tipo de experiência. O empecilho grande para seguirmos o
exemplo de Jesus — exemplo de recebimento do Espírito — é que a descida visível
do Espírito sobre Jesus era um acontecimento que Deus havia predeterminado, a
fim de que João Batista reconhecesse aquele que batiza com o Espírito Santo Assim
diz o texto: Aquele que me enviou para batizar com água, disse-me: “Aquele
sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é quem batiza no Espírito
Santo” (Jo 1.33). Parece, então, que todo um acontecimento estava programado.
Querer imitar isto hoje é não entender a ação de Deus na história. Na verdade,
os casos ocorridos antes e no Pentecostes, não podemos desejar que se repitam
da mesma maneira hoje.
Acreditamos
que o Espírito possa vir e ser derramado sobre grupos de pessoas — à semelhança
do Pentecostes — e se for da vontade de Deus, haver distribuição de dons. Mas
devemos lembrar que, no caso de Pentecostes, houve também toda uma preparação
especial para se receber o Espírito prometido por Jesus. Os fenômenos que
aconteceram estavam relacionados com a presença das pessoas de diferentes
nações: “Achavam-se então em Jerusalém homens piedosos de todas as nações...”
(At 2.5). O dom de línguas foi dado naquele momento com um objetivo: “Cada qual
os ouvia falar em sua própria língua” (At 2.6).
O
quê?
Os
próprios estrangeiros responderam: “Ouvimo-los em nossa língua apregoar as
maravilhas de Deus” (At 2.11).
Querer
que a história se repita hoje é, praticamente, impossível! Portanto, dizer que,
seguindo os passos dos discípulos, acontecerão os mesmos fenômenos, é não
entender a ação de Deus nos acontecimentos da vida.
Os
casos, sim, após Pentecostes — quando o Espírito já havia sido dado, que é a
situação que vivemos hoje — têm muito mais probabilidade de se repetir, sem
desejar contudo que seja xerox, o seja, que o recebimento do Espírito por nós
sela em tudo igual aos acontecimentos do Novo Testamento.
Quais
foram os casos pós Pentecostes?
Foram:
judeus (At 2.38-42); samaritanos (At 8.14-17); Paulo (At 9.17-20); gentios (At
10.44-45) e discípulos de Éfeso (At 19.1- 6).
Mas
todos estes casos poderiam também ser repetidos hoje?
Cada
caso é um caso! Portanto, devemos analisar também com cuidado as circunstâncias
que os levaram a receber o Espírito, embora possamos dizer que os
acontecimentos após o Pentecostes se aproximam mais de nós.
Há
dois casos, que aconteceram em circunstâncias especiais, que acreditamos não
serem fáceis se repetirem hoje: o caso dos gentios e o caso dos discípulos de
João Batista, em
Éfeso.
Por que? No recebimento do Espírito Santo pelos gentios, havia nitidamente a
intenção de haver certos acontecimentos semelhantes ao do Pentecostes, a fim de
que assim ficasse provado que em tudo - gentios foram merecedores também da atenção
e favor divino. Tanto é verdade que por causa deste acontecimento,
posteriormente Pedro foi acusado pelos de Jerusalém: “Entraste em casa de
incircuncisos e comestes com eles?” (At 11.3). Aí Pedro teve que ter bons
argumentos — o que teve — para convencer os discípulos de que os gentios também
foram merecedores do favor divino.
Pedro
procurou mostrar que o “Pentecostes dos gentios” foi semelhante ao Pentecostes
dos discípulos. Ele fez isto através de comparações: “Quando, porém, comecei a
falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós no princípio...“
(At 11.15). Em outro momento, ele fez também a comparação: “Pois se Deus lhes
concedeu o mesmo dom que a nós outorgou quando cremos no Senhor Jesus...“ (At
11.17). No final, os discípulos se convenceram: “Deus, portanto, concedeu
também aos gentios a conversão que conduz à vida” (At 11.18). Assim, podemos
dizer que Deus permitiu uma situação para mostrar que os gentios também têm
iguais direitos diante dele.
Hoje,
porém, a situação é diferente daquela época: não é só os judeus que são
cristãos. Em quase todo o mundo o evangelho já foi anunciado por isso o
cristianismo existe em quase todos os países. Cremos que não é mais necessário
Deus conceder os
mesmos
direitos a um determinado povo, a fim dele então ser visto como igual a todos.
Isto já está mais do que provado! As bênçãos, misericórdias, dons, etc., têm
sido dados a todos aqueles que creem em Jesus Cristo, independente da cor,
raça, sexo e cultura.
Por
esta razão, dizemos que este caso, dificilmente, poderia também servir como
exemplo para ser seguido por aqueles que ainda não são cristãos.
E
no caso dos discípulos de João Batista, em Éfeso? Lá há também certos fatos que
dificilmente se repetem hoje! Hoje nós não temos por aí discípulos de João
Batista, que tinham um cristianismo incompleto. Há, sim, pessoas que pertencem
a determinadas seitas ou mesmo Igrejas que desconhecem a existência do Espírito
Santo. Há pessoas também que não foram batizadas no nome de Jesus Cristo. No
caso dos discípulos de João Batista, estes dois fatos ocorreram. Paulo, porém,
não pediu que eles se convertessem, pois eles já criam em Jesus (At 19.4).
Este
caso, então, só se aplicaria às seguintes pessoas: os que creram em Jesus mas
que não conhecem o Espírito Santo e nem também foram batizadas em nome de Jesus
Cristo. Podemos dizer, então, que havendo caso semelhante, ele poderia servir
de exemplo para hoje.
Sobram
agora três casos: judeus, Paulo e samaritanos!
Estes
três se aproximam mais da situação que vivemos hoje, ou seja, daqueles aos
quais iremos evangelizar. Por quê? Nos três casos, houve necessidade de
conversão, antes deles receberem o dom do Espírito. Nos três casos, eles também
não eram ainda batizados, em nome de Jesus Cristo. Nos três casos, eles não haviam
recebido ainda o Espírito Santo. Isto está bem perto de nossa realidade de
Missões da Igreja! Então, podemos dizer que crer e ser batizado em nome de
Jesus Cristo, são fundamentais para se receber o dom do Espírito, sem contudo,
colocarmos o batismo como necessário para vir a receber o Espírito Santo.
2
— Não há um dom predeterminado para se receber
Dizer
que todo aquele que é “batizado com o Espírito Santo” tem que falar em línguas,
é uma aberração bíblica. Isto foi espalhado em 1900, nos EUA, por Charles Fox,
um evangelista de origem metodista.
Como
as Igrejas chamadas pentecostais chegaram ao Brasil, a partir de 1910, esta ideia
foi trazida e espalhada por aí.
Mas
será isto verdade mesmo?
Dos
dez relatos aqui analisados, eis o que se apurou:
•
Em cinco casos não houve manifestação de nenhum dom.
Estes
casos são: Jesus (Lc 3.21-22); discípulos de Jesus, na versão de João (Jo
20.21-23); judeus (At 2.38-42); Paulo (At 9.17-20) e samaritanos (At 8.14-18).
•
Em quatro casos houve distribuição do dom de profecia.
Estes
casos são: Isabel (Lc 1.45); Zacarias (Lc 1 .67); discípulos de Jesus, na
versão de Lucas (At 2. 14-17) e discípulos, em Éfeso (At 19.1-6).
•
Em três casos houve distribuição do dom de línguas.
Estes
casos são: discípulos de Jesus, na versão de Lucas (At 2.1-13); gentios (At 10.44-45)
e discípulos, em Éfeso (At 19.1-6).
•
Em um caso houve distribuição de dom de revelação. Este caso é: Isabel (Lc
1.41).
Se
formos considerar que o apóstolo Paulo recebeu o dom de profecia (At 9.17-20),
então, este dom ficaria em primeiro lugar nesta lista.
Portanto,
não se pode dizer que só tendo um determinado dom é que se é “batizado com o
Espírito Santo”. A proporção maior é não acontecer nenhum fenômeno ou
distribuição de dons, no momento de se receber o Espírito Santo. Se tivéssemos
que determinar um dom, no recebimento do Espírito, este não seria também o dom
de línguas e sim de profecia, pois este é, em proporção, maior.
Paulo,
posteriormente, explicaria que nós não podemos determinar o tipo de dom que
iremos receber, pois “o único e mesmo Espírito que o realiza, distribuindo a
cada um os seus dons, conforme lhe apraz” (1Co 12.11)
Escrevendo
aos romanos, Paulo diria também que temos “dons diferentes, segundo a graça que
nos foi dada” (Rm 12.6). Isto é, os dons são dados conforme a necessidade local
e do momento. Assim, o evangelho poderá ser anunciado e consolidado, de maneira
integral.
Voltando
ao caso atrás, diríamos também que naqueles que já tinham o Espírito Santo, a
proporção maior é falar em profecias.
Pedro,
após o Pentecostes assim procedeu: “Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu
(At 4.8). Paulo também: “Paulo cheio do Espírito Santo, fixou nele o olhar, e
disse...“ (At 13.9). Este “cheio do Espírito” significa acima de tudo falar
inspirado por Deus ou por profecia. Assim, se recebermos um dom, será dado
conforme o Espírito desejar e não conforme queremos!
Nos
três casos que poderiam servir como exemplo para nós — judeus, samaritanos e
Paulo — não houve descrição de nenhum fenômeno. Pode ser até que tenha
ocorrido, mas o autor de Atos dos Apóstolos não julgou importante relatar. Como
ele foi inspirado por Deus, cremos que esta foi a vontade do Pai.
3
— Crer é essencial para recebermos o Espírito Santo
Dizer
que temos que fazer isto e aquilo para recebermos o dom do Espírito, não é nada
correto. A Bíblia procura deixar claro que o Espírito é um dom de Deus, ou
seja, é algo que nos é dado, não por merecimento, mas sim por livre graça de
Deus. É um dom gratuito de Deus (cf At 2.38; 10.45; 11.17; 15.8; Jo 3.34; Rm
5.5,etc). Quem desejou “comprar” este dom de Deus foi repreendido: “Pereça o
teu dinheiro, e tu com ele, porque acreditaste ser possível com dinheiro
comprar o dom de Deus” (At 8.20).
A
Bíblia fala, sim, que Deus dará o Espírito Santo àqueles que crerem (Jo 7.39;
Ef 1.13; Gl 3.14; At 11.17, etc.). Este “crer” significa, no original grego:
confiança salvadora em Jesus Cristo!
Isto
é, não é crer que se receberá o Espírito Santo e sim crer em Jesus Cristo como
nosso Salvador pessoal.
Não
há ênfase na Bíblia — após o Pentecostes — de se converter a Jesus Cristo e
depois passar a pedir o Espírito Santo.
Pedro
mesmo disse, deixando isto bem claro: “Convertei-vos, seja cada um de vós batizado em nome de Jesus
Cristo, para a remissão de pecados, e recebereis, então, o dom do Espírito Santo”
(At 2.38).
Quando
a pessoa crê e não recebe o Espírito é, então, porque alguma coisa está errada
em sua vida espiritual. Talvez, não houve crença total ou entrega completa de
sua vida a Jesus Cristo. Assim, foi com os discípulos, em Éfeso, que tinham um cristianismo
incompleto, pois nem sabiam que havia o Espírito Santo e não haviam sido
batizados em nome de Jesus Cristo (At 19.1-4). Paulo, então, precisou fazer o
complemento, a fim que eles recebessem o dom do Espírito. Lá Paulo,
inicialmente, lhes perguntou se eles haviam recebido o Espírito Santo, quando creram
(At 19.2), o que mostra que isto é o normal.
Em
Samaria aconteceu fato semelhante, pois eles haviam crido e sido batizados, mas
não haviam recebido o Espírito Santo.
Será
porque acreditavam ainda um pouco em Simão, o mago?
Provavelmente
sim, pois ele havia impressionado o povo daquela região: Toda gente lhe dava
ouvidos, desde o menor até ao maior, dizendo: “Este é o poder de Deus, que se
chama Grande” (At 8.10). Talvez isto acontecesse com eles ainda. O que é claro
é que o texto bíblico mostra que algo estaria errado lá em Samaria: “Estes
desceram, pois, para junto dos samaritanos e oraram por eles, a fim de que
recebessem o Espírito Santo. Porque ainda não viera sobre nenhum deles... “(At
8. 15-16). Este “ainda” indica que era para ele ter vindo... O fato dos
apóstolos terem ido lá mostra que algo anormal havia acontecido.
Algo
interessante e polêmico — é que, nestes dois casos, em nenhum momento o texto
diz que eles, os que haviam crido, oraram pedindo que viesse o Espírito Santo.
Mostra, sim, o Espírito sendo dado por intermédio da imposição das mãos dos
apóstolos, que oraram para que ele viesse. Parece claro, então, que não há ênfase
de aquele que crer ter que passar a pedir o Espírito Santo.
Mas
Jesus não disse em Lucas 11.13 que daria o Espírito aos que lhe pedissem? Sim,
disse! Porém, ele estava se referindo aos seus discípulos (Lc 11.1), que não
tinham ainda recebido o Espírito, pois Jesus não havia ainda sido glorificado
e, por isso, não havia enviado o Espírito Santo. Posteriormente, Jesus diria
para eles esperarem a promessa do Pai (Lc 24.49), o que aconteceu, certamente
orando (Lc 1.14) e pedindo que a promessa viesse logo.
Após
o Pentecostes, não há ênfase alguma na Bíblia sobre o pedir o Espírito Santo.
Assim como o Messias era esperado e os judeus oravam pedindo que ele viesse,
assim também Jesus pediu que orassem para que o Pentecostes acontecesse.
O
Messias — Jesus — vindo, não se precisou mais pedir que ele viesse. A questão,
então, era se tornar seu discípulo, crendo que ele era o Filho de Deus, nosso
Salvador. A mesma coisa se aplica ao Espírito Santo. Ele foi dado no
Pentecostes e agora ele sopra onde quiser. O que se tem que fazer agora não é
pedir que o Espírito venha, pois ele já veio, e sim crer em Jesus Cristo como
Senhor e Salvador e “recebereis, então, o dom do Espírito Santo” (At 2.38).
Em
resumo: os dois já vieram e fizeram a sua obra — e continuam realizando. Crendo
em Jesus, recebe-se o Espírito Santo. Mas como explicar em At 4.31 — após o
Pentecostes — que mostra os discípulos orando para receber o Espírito Santo?
Acontece
que o texto não diz que eles oraram pedindo o Espírito Santo e nem podiam
fazê-lo, pois eles já tinham o Espírito (At 2.4), que segundo Jesus foi dado
“para que convosco permaneça para sempre” (Jo 14.16). O que aconteceu é que
eles se sentiam ameaçados pelas autoridades judaicas (At 4.29) e pediram ao
Senhor que lhes fortalecesse e capacitasse para que pudessem pregar o evangelho
com toda confiança” (At 4.29).
Mas
por que eles ficaram cheios do Espírito? Este ser cheio do Espírito — como já
foi explicado — significa “falar inspirado por Deus” ou por profecia. O texto
mesmo diz: “Ficaram cheios do Espírito e puseram-se a anunciar a Palavra de
Deus com firmeza” (At 4.31).
O
mesmo aconteceu a Pedro anteriormente: “Pedro, cheio do Espírito, respondeu...“
(At 4.8). Estevão, em situação difícil, à semelhança dos discípulos em At 4.31
e de Pedro em At 4.8, teve o mesmo procedimento: “Ele, porém, cheio do Espírito
Santo, olhando para o céu, viu a glória de Deus e Jesus de pé a direita de Deus,
e disse...” (At 7.55). Paulo em situação também difícil, disse em ocasião
posterior: Paulo, cheio do Espírito Santo, fixou nele, o olhar, e disse: “Ó
filho do diabo...“ (At 13.9).
Assim,
este “ser cheio do Espírito” nestas ocasiões — e em Lc 1.41; 1.67; At 2.4; 9.17
— significa que Deus lhes concedeu o dom de profecia ou a capacidade de falar
inspirado por Deus, com toda ousadia. Isto pode acontecer no momento de receber
o Espírito, bem como em ocasiões que a situação “exige”, a fim de que a Palavra
de Deus seja pregada e se dê testemunho do Senhor Jesus.
Após
o Pentecostes, sim, a Bíblia recomenda que se busque a plenitude do Espírito
(Ef 5.18), que é ser diferente de ser “batizado com o Espírito Santo”. Ser
batizado com o Espírito, a verdade, é o
mesmo que “receber o Espírito” (Gl 3.14). É o mesmo que “dom do Espírito” (At
11.17). Este termo, porém, só é usado em comparação ao batismo de João Batista,
mostrando a superioridade de Jesus (cf Lc 3.16; At 1.5; At 11-16-17). Quando não
há necessidade de se fazer a comparação, os termos usados são outros.
Já
plenitude do Espírito significa o “fim de um curso”; “o último de uma série”,
mostrando assim que ele é superior ao batismo no Espírito. Tanto é verdade que
os efésios já haviam recebido o Espírito Santo, já haviam sido “batizados com o
Espírito” (cf At 19. 1-7; Ef 4.30) e Paulo ainda recomenda que busquem a
plenitude do Espírito (Ef 5-18).
A
plenitude do Espírito significa também o “elemento que completa”, unificando e
harmonizando. Por isso, logo após Paulo falar em plenitude do Espírito, ele
mostra o motivo desta recomendação: “falai uns aos outros com salmos e hinos e cânticos
espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e por tudo
dando graças a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Submetei-vos
uns aos outros...” (Ef 5.19-21). Esta plenitude, que unifica e harmoniza, era a
solução para que isto acontecesse.
A
plenitude do Espírito, então, sim, deve-se buscar, através de orações e
súplicas. O cristão não deve se contentar apenas com o recebimento do Espírito,
mas deve procurar ser completamente cheio dele, pois as vitórias serão maiores.
Outra
coisa que o cristão — aquele que já tem o Espírito Santo — deva procurar fazer
é ser “fortalecido com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (Ef
3.16).
Às
vezes, os problemas e as lutas da vida “apagam” um pouco a ação do Espírito em
nossa vida. O que devemos fazer, então, é nos renovarmos e nos fortalecermos,
nos abrindo mais à ação do Espírito. Isto deve ser feito também com orações e súplicas...
Como os apóstolos se renovaram para a Missão (At 4.31), assim nós hoje podemos
ser renovados e fortalecidos pela ação e poder do Espírito.
Mas,
então, por que há cristãos que buscam o “batismo com o Espírito” e o conseguem?
O que há são pessoas que julgam ou são “condicionadas” a achar que, falando em
línguas, receberam Espírito ou foram “batizadas”. Assim, muitas vezes, o condicionamento
leva estas pessoas a falarem um amontoado de palavras sem sentido, que julgam
ser “línguas estranhas”. Não estamos combatendo o dom de línguas, pois
acreditamos que este dom pode existir ainda hoje. Combatemos a falsa “língua estranha”.
Na
verdade, o que acontece, muitas vezes, são pessoas que são “fortalecidas em
poder” pelo Espírito, ao pedirem em oração e súplica. O que há são pessoas que
alcançam a “plenitude do Espírito”. Muitos não sabem o que pedem. Se Deus fosse
olhar para os termos errados em que falamos, ele deixaria de nos dar muita
coisa! Mas no seu amor, na sua misericórdia, ele nos dá uma determinada bênção, apesar de darmos outro
nome a esta experiência.
Não
pode haver cristão, sem o Espírito Santo! Paulo já dizia isto: “Quem não tem o
Espírito de Cristo, não pertence a ele” (Rm 8.9). O que pode haver, neste caso,
é ter pessoas cristãs, que não sabem que têm o Espírito Santo, por ignorância
ou falta de esclarecimento.
O
Espírito é Deus em nós! O Espírito é Jesus Cristo — o Deus encarnado — em nossa
vida! Se o aceitarmos pela fé, ele passa a habitar em nossa vida: “Eis que
estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei
em casa, e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3.20).
Será
certo dizer que temos, ao mesmo tempo, Jesus e o Espírito em nossa vida? Não! O
que temos é um só: Deus — Espírito Santo em nosso coração. A dificuldade que
surge é que muitos dizem que aceitaram a Cristo e agora precisam receber o Espírito
Santo. Jesus esclarece isto, dizendo: “O Espírito da Verdade, que o mundo não
vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós”
(Jo 14.17). Jesus habitava com eles corporalmente, mas depois habitaria nas
suas vidas, através do Espírito. Por isso, ele completa: “Não vos deixarei órfãos,
voltarei para vós outros” (Jo 14.18). Paulo confirma: “O Senhor é o Espírito”
(2Co 3.17), mostrando assim que o Espírito Santo é o Senhor Jesus Cristo, agora
em nossa vida.
4
— O Espírito opera nas pessoas de maneira diferente
Algo
que se costuma fazer, mas que não se pode, é determinar os fatos que ocorrerão
no recebimento do Espírito. O Espírito Santo age como, onde e quando quiser.
No
Pentecostes o texto diz que “de repente, veio do céu um ruído semelhante ao
soprar de impetuoso vendaval (At 2.2). No Pentecostes dos gentios também o
recebimento do Espírito foi de uma maneira inesperada: “enquanto Pedro falava,
o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a Palavra” (At 10.44).
Mas,
enquanto nestes casos houve estes acontecimentos semelhantes, os fenômenos
foram diferentes: no Pentecostes ouve ruído, mas no caso dos gentios,
samaritanos e outros, não houve.
No
Pentecostes houve línguas e, certamente, profecia, mas com os judeus, Paulo e
outros, não houve fenômenos.
Portanto,
não se pode determinar os fatos que ocorrerão, colocando-se uma regra geral.
Deus age de forma diferente nas pessoas, ao dar o seu Espírito. Wesley,
avivador do cristianismo na Inglaterra no século XVIII, disse: “Muitos o
encontram derramando sobre eles como uma torrente enquanto experimentam o poder
dominador da graça salvadora... Mas ele opera em outros de maneira muito
diferente; ele exerce a sua influência de maneira delicada, refrescante como o
orvalho silencioso”. (12)
Também
não se pode colocar uma regra geral sobre o batismo. No caso dos judeus, Pedro
disse que após o recebimento do batismo, eles teriam o Espírito Santo: “... e
seja cada um de vós batizados, e recebereis, então, o dom do Espírito Santo”
(At 2.38).
Já
no caso dos gentios, porém, eles foram batizados, após receberem o dom do
Espírito: “Pode-se, porventura, recusar a água do batismo a esses que, como
nós, receberam o Espírito Santo?” (At 10.47). O texto aqui não indica que o
Espírito age quando quiser? No caso também da imposição das mãos, não e pode colocar uma regra geral!
Em
alguns casos houve imposição das mãos para a pessoa receber o dom do Espírito.
No caso dos samaritanos foi assim: “Impunham-lhes, pois as mãos, e eles
recebiam o Espírito Santo” (At 8.17). No caso dos discípulos em Éfeso (At 19.6)
e do próprio Paulo (At 9.17) também houve imposição das mãos. No caso, porém,
dos discípulos no Pentecostes (At 2.1-4) e dos gentios (At 10.44-45) não houve
imposição das mãos.
Estabelecer
uma regra geral para estes casos, portanto, é muito perigoso! Mas, baseado nos
três casos — judeus, samaritanos e Paulo — que se aplicariam hoje àqueles que
ainda não são cristãos, pode-se estabelecer uma regra geral?
Pode-se
dizer o seguinte:
•
Sobre a imposição das mãos
Em
dois casos — samaritanos e Paulo — houve imposição das mãos para receber o
Espírito Santo, mas no caso dos judeus não se pode afirmar, categoricamente,
que houve imposição das mãos.
•
Sobre o batismo
Em
dois casos — judeus e samaritanos — houve recebimento do Espírito, após o
batismo, mas certamente com Paulo foi o contrário.
•
Sobre o crer para receber o Espírito
Nos
três casos — judeus, samaritanos e Paulo — houve crença em Jesus Cristo para o
recebimento do Espírito Santo.
Assim,
a única afirmação correta que se pode fazer — e para isto há as bases bíblicas
de Jo 7.39; At 11.17; Ef 1.13; Gl 3.2; 3.5; 3.14; Ef 4.30, etc. — é que crendo
em Jesus como Senhor e Salvador, recebe-se o dom do Espírito. Crer é elemento fundamental
em todos, mas o Espírito opera nas pessoas como ele desejar.
CITAÇÕES
1
— JONES, s., O Cristo de Todo. os Caminho., São Paulo, Imprensa Metodista, 168,
p. 44.
2
— BOOF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador, RJ, Editora Vozes 1974, p, 19.
3
— TAYLOR. W. Carisma em Dicionário do Novo Testamento Grego, RJ, Casa
Publicadora Batista, 1965, p. 213.
4 — Ibtd., p. 131-2
5 — IbId., P 34
6 — Ibld., p. 208.
7
— A Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Edições Paulinas, 1973, p. 156.
8
— B0RN, A. Vais Deis e outros, ‘Espírito’ em Dicionário Enciclopédico da
Bíblia, RJ, Editora Vozes, 5977, p. 486.
9
— ORTIZ J., O Discípulo, Minas Gerais, Editora Betânia, 1977, p. 170.
10
— TAYLOR, W., Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego, Rio de Janeiro,
Casa Publicadora Batista, 1966, p. 200
11
— TAYLOR, W., Dicionário do Novo Testamento Grego, op, cit. p.177.
12
— BURTNER. R, — CHILES, R., Coletânea da Teologia de João Wesley, São Paulo,
JGEC, Imprensa Metodista, 1960, p. 95.
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